Por Lyllian Bragança

O Carnaval reflete o preconceito que existe na sociedade e, muito embora o que se vende nas escolas de samba seja o papel da igualdade, existe um equívoco visível nesse discurso.

Qual é então o lugar da mulher negra,  que ajudou a construir esses espaços? São os lugares secundários ou a falsa impressão de pertencimento? E isso acontece porque as estruturas das escolas de samba perpetuam privilégios e não fazem uma reflexão sobre a história e sobre a construção desses quilombos.

Para contextualizar, vemos o caso da cantora Iza, mulher negra de grande representatividade, que ao ser convidada para estar à frente de uma conceituada bateria do carnaval carioca, traz à tona uma questão de suma importância: o privilegio branco nas escolas de samba. Claro que a artista não é branca, mas estará à frente de uma agremiação dirigida há quatro décadas por pessoas brancas e que coloca em sua bateria apenas mulheres negras midiáticas, sem dar o devido destaque às meninas da comunidade.

Vale ressaltar que elas são preteridas e que o processo de embranquecimento, relacionado ao poder aquisitivo, excluiu essas garotas periféricas dos espaços de destaque. No entanto o caso aqui é mostrar o quanto nossos corpos pretos são utilizados e muitos não se dão conta de que isso é uma construção e perpetuação de poder.

Há uma narrativa construída que determina os lugares ocupados pelas mulheres pretas do carnaval,  justamente para que não haja questionamentos e um levante, necessário, para poder modificar essa narrativa que nos foi imposta e que continuamos a reproduzir. O processo de reparação histórica sobre questões raciais precisa ser revisto também pelas escola de samba, já que foram erguidas e organizadas por mulheres negras, as quais, muitas vezes, são colocadas em posições secundárias.

Iza, além de ter laços com a comunidade, é uma força, a conexão à altura e nos moldes que queremos e precisamos. Ela também é de muita importância para a luta na construção de uma ponte para outros movimentos necessários dentro das escolas de samba.

A partir desse incômodo causado por um processo histórico, precisamos falar sobre e rever nossos conceitos. Que possamos cada vez mais olhar pela perspectiva preta e assim construir uma narrativa nossa e não mais acreditar em um único olhar, que é perigoso, como pontua Sueli Carneiro em seus escritos.

Muita luz para Iza nesse momento, e que cada vez mais as pessoas, pretas e brancas, homens e mulheres, consigam observar esses desconfortos e utilizem a própria história e estrutura do carnaval para evoluir. Afinal, sem o passado não podemos vislumbrar um futuro.

* Lyllian Bragança é jornalista por formação e sambista por adoração. É passista e musa do Vai-Vai.

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