CONTEÚDO ENTREVISTA EXPOSIÇÕES

Sesc Pompeia abre espaço cultural inédito com nomes da cultura afro-brasileira

Exposições gratuitas de artes plásticas e fotografia afro estão disponíveis em cartaz até setembro com entrada franca

O chão de concreto e os veios d’água que cruzam a icônica área de convivência do Sesc Pompeia, compõem o cenário para um evento singular na arte brasileira. De forma simultânea, a unidade reúne as exposições “Riscadura de Fogo – Jorge dos Anjos” e “Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar”.

Juntas, as mostras, que estarão disponíveis respectivamente até agosto e setembro gratuitamente, celebram mais de cinco décadas de produção contínua de dois nomes fundamentais do panorama artístico nacional e estabelecem um diálogo profundo sobre territorialidade e ancestralidade negra.

Enquanto Jorge dos Anjos utiliza o calor e as matérias da terra para criar símbolos plásticos de resistência e espiritualidade, a retratista e fotógrafa Lita Cerqueira constrói sua jornada pelo afeto, eternizando o cotidiano negro e a efervescência cultural do país a partir de uma perspectiva de cumplicidade.

Para falar sobre o trabalho da arte plástica negra e da fotografia documental, entrevistamos Felipe Abdala, do Núcleo de Artes Visuais do Sesc Pompeia.


Lita Cerqueira: O direito do olhar afro e a estética da intimidade

A exposição dedicada à baiana Lita Cerqueira desvela o pioneirismo de uma das lentes mais reverenciadas da fotografia brasileira. Reunindo 47 imagens, além de filmes inéditos em formato Super 8 gravados na década de 1970 — que registram desde festejos populares como a Festa do Senhor do Bonfim e a Independência da Bahia até performances históricas da cantora Clementina de Jesus —, a mostra visual consagra o olhar íntimo da retratista, além da diversificação: rostos anônimos das ruas e ícones da cultura nacional, como os também cantores Gilberto Gil, Elza Soares e os cineastas Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos.

Segundo Felipe Abdala, o trabalho de Lita representa uma ruptura drástica com a tradição documental tradicional, frequentemente marcada por um distanciamento antropológico exótico e colonial. “A gente consegue fazer um parâmetro com a tradição fotográfica brasileira, pensando como pessoas negras e pretas vinham sendo retratadas ou o que conhecemos em termos de representação fotográfica das pessoas aqui no Brasil dessa época, pensando na década de 1970, 1980. Por exemplo, Pierre Verger, que retratava pessoas negras, principalmente relacionadas a manifestações das religiões de matriz africana, e que era um homem branco francês que migrou para o Brasil.

Um dos grandes triunfos de “Direito de Olhar” reside no ineditismo de metade das peças exibidas. Refletindo sobre novidades na mostra, Abdala frisou a extensão do trabalho da retratista como algo que precisava ser compreendido na exposição.“Na hora de pensar esse conjunto de obras, teriam que ser de obras inéditas. Porque em visita ao acervo da Lita, era tudo muito maior do que aquilo que a gente já conhecia anteriormente. De onde veio essa quantidade de trabalhos, há muito mais para ser pesquisado, visto, divulgado e exibido. E a nossa tentativa foi fomentar um pouco mais a divulgação desse acervo da Lita, que é gigante.”

A curadoria joga luz sobre uma característica marcante da artista: a quebra da barreira entre fotógrafo e fotografado através do olho no olho, gerando um “pacto de dignidade” até os visitantes. “O fato de o acervo de fotografias da Lita ter muitas pessoas que olham diretamente para a câmera chamou muita atenção, porque quando a pessoa retratada olha direto para a câmera, ela está olhando diretamente para quem está fotografando, que nesse caso é a Lita. E quando essa foto é exibida, a pessoa fotografada está olhando direto para quem está vendo a foto. Essa sensação de intimidade é uma diferença direta, a sensação de que a gente está fazendo parte ou de que a gente está sendo visto também por aquelas pessoas.

O ‘direito de olhar’ ali, que intitula a exposição, não diz respeito somente ao direito de olhar da própria fotógrafa, diz respeito ao direito de olhar de quem está sendo retratado. E quando a gente está falando sobre representação ou retratar pessoas negras nesse país, esse direito é um direito fundamental de você olhar aquilo que te interessa, aquilo que te chama a atenção, sem ter nenhum julgamento a partir disso”, finaliza Abdala.


Jorge dos Anjos: O fogo como arquitetura da ancestralidade

Marcando sua aguardada primeira exposição individual na capital paulista, o mineiro Jorge dos Anjos apresenta um percurso antológico focado na transformação da matéria bruta em pura linguagem. Suas esculturas, pinturas e desenhos ocupam o espaço expositivo de maneira orgânica, integrando-se à arquitetura do Sesc. O uso da pedra-sabão, feltro, pólvora, aço e ferro, os materiais dão à mostra uma atmosfera densa, onde cada textura carrega um fundamento ritualístico e histórico, elementos chave da exposição “Riscadura de Fogo”.

Os materiais, são muito importantes nessas referências. São usados, mas têm fundamentos; não são escolhidos de qualquer maneira. A pedra-sabão, por exemplo, tem muito a ver com Ouro Preto, com Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, as igrejas barrocas. É também uma referência à memória. E a pedra-sabão é da região onde eu nasci. Então, é muito importante eu trabalhar com esses materiais, trazê-los como algo simbólico”, afirma o artista.

A fim de retratar o universo afro-brasileiro através de símbolos, ele revela a importância da exatidão formal das figuras, encontrando no desenho geométrico uma das formas mais efetivas de criar as referências gráficas afro-brasileiras: “Eu uso a geometria, ela é a única maneira que eu encontrei de trabalhar com simbologias, com as referências dessa ancestralidade, de religiosidade, de musicalidade, da nossa linguagem afro-brasileira e ancestral africana. A mostra é, acima de tudo, uma conciliação de símbolos musicais, religiosos, ancestrais representados, então tem um pequeno mundo afro transposto ali”, diz Jorge.

Refletindo sobre o nome da mostra, o artista plástico pontua a dualidade do fogo como transformador físico das esculturas e artes como simbologia afro religiosa. “O elemento fogo é muito importante na construção do trabalho porque é o transformador das matérias. É através dele que eu faço o corte nas chapas. Quando eu desenho com a pólvora, o elemento fogo transforma a matéria que é bruta em uma matéria de linguagem. Ele também tem uma simbologia muito grande, porque é uma coisa de Ogum, que é um orixá das ferramentas, que são armas construídas para proteger, defender e afirmar.

Eu uso sempre esses termos para dizer que é uma afirmação da cultura de memória e ancestralidade.”


SERVIÇO: Exposições: Riscadura de Fogo - Jorge dos Anjos / Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar
Período: Cartaz até 02 de agosto de 2026 (Riscadura de Fogo) / 13 de setembro de 2026 (Direito de Olhar)
Valor: Entrada gratuita
Horários de visitação: De terça a sexta, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
Local: Sesc Pompeia; Rua Clélia, 93 - Pompeia – São Paulo (SP)
sescsp.org.br/pompeia
Kelvyn Araujo

Kelvyn Araujo

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