MÚSICA

Tico Santa Cruz celebra arco-íris sonoro em novo álbum do Detonautas

*Por Kelvyn Araújo

Em entrevista ao Matraca Cultural, vocalista do grupo carioca fala sobre novo momento da banda, nostalgia x experimentalidade e reinvenção criativa

Quase duas décadas e meia separam “Detonautas Roque Clube”, disco de estreia dos Detonautas, lançado em 2002, de “Rádio Love Nacional”, mais recente trabalho do grupo carioca fundado no fim dos anos 1990, lançado em março deste ano. No período, muitas mudanças se sucederam dentro e fora da banda, na indústria musical, no contexto político e social do Brasil e até nos referenciais composicionais do conjunto. Dessas diferenças resultou o nono álbum do quinteto formado por Tico Santa Cruz (vocal), Renato Rocha (guitarras), Phil Machado (guitarras), Macca Agrizzi (baixo) e Fábio Brasil (bateria).

Sucessor dos politizados e dramáticos “Álbum Laranja” (2021) e “Esperança” (2002), “Rádio Love” é o primeiro álbum do grupo pós-pandemia. O desejo da oxigenação para um trabalho distinto veio e se resumiu, se podemos descrever em um ponto, na escolha da produção, dominada por Pablo Bispo e Ruxell, nomes importantes do pop nos últimos anos em gêneros a priori distantes do rock cru e melódico identificado com a banda. Enquanto Bispo trabalhou com nomes que vão de Anitta à Iza, passando por Glória Groove e Mulher Pepita, Ruxell, cria da música eletrônica e dos “batidões”, como bom DJ que é, esteve com os citados artistas e outros, também estabelecendo parcerias e uma carreira solo com indicações ao Grammy Latino.

Com nomes de peso da produção musical contemporânea, estima-se, à primeira vista, que “Rádio Love Nacional” segue primariamente tais tendências. Sim e não. Isto porque influências do pop, do rap e eletrônico são diluídas em um repertório que conversa com o reggae, o rock melódico habitual da banda e experimentos que vão de marchinhas de carnaval até a música eletrônica. Fundindo uma ponte entre o passado e o presente, o álbum apresenta um Detonautas renovado, mas longe de perder sua essência.

O poder de experimentar

Tico Santa Cruz afirma que “Rádio Love Nacional” é como um arco-íris sonoro e ressalta a capacidade de diferentes estilos que vão ao encontro de gêneros que fazem parte da história do Detonautas. Descrito como uma experiência de antologia inovadora, o vocalista frisa que o leque de experimentalidades do álbum não foi algo pontual neste instante da carreira e não deve estranhar fãs habituais com o rock mais enérgico da banda.

“É um disco que passa por sonoridades muito diferentes umas das outras, mas ao mesmo tempo com o DNA do Detonautas, que é uma banda que se formou em 1997, e atravessou, nesses quase 30 anos, inúmeras mudanças. O Grupo sempre teve esse flerte com outros gêneros desde sua origem. Nós já tínhamos gravado um bolero com Alcione, por exemplo, além de baladas bonitas, como “Por Onde Você Anda?”, com o Lucas Lucco. Tivemos a oportunidade de tocar junto com o Gabriel Pensador, com Detentos do Rap, com DMN, com Cone Crew Diretoria. Tudo isso é um embrião constante”, comenta Tico.

“A nossa missão como artista é causar estranhamento e, ao mesmo tempo, dialogar com os mais diversos tipos de fãs que o Detonautas tem, que não se resumem aos que escutam música mais pesada. Nesse álbum nós conseguimos, de certa forma, atravessar essa ponte que já vinha sendo traçada e que já estava no nosso caminho”, complementa.

Além do novo trabalho trazer frescor à banda, Tico destaca a importância da dupla de Pablo Bispo e Ruxell na produção, que, em suas palavras, “moldou o álbum “Rádio Love Nacional”. “Eu conheci o Pablo via chat durante a pandemia, no Clubhouse, quando a gente não tinha contato físico e não conseguia conversar com as pessoas pessoalmente. Ele me apresentou o Ruxell e quando eu trouxe a música “Potinho de Veneno”, os dois trabalharam juntos e a mágica foi feita. Moldou todo o álbum. Dali pra frente as coisas passaram a acontecer de uma forma muito natural, como se a gente já se conhecesse de outras encarnações”.

Os sons e visuais da rádio eclética

Para o trabalho, o grupo contou com faixas notáveis no leque de experimentações. A citada “Potinho de Veneno”, inspirada pela cantora Rita Lee (1947-2023) carrega um símbolo particular, além de ser o marco zero da feitura de “Rádio Love Nacional”. Ela foi a primeira gravação oficial do estúdio que levou o nome da artista, feito pela gravadora Warner Chappell, e recebeu o aval de Roberto de Carvalho, parceiro pessoal e composicional de Rita.

“Estava muito debruçado na obra da Rita Lee e isso me inspirou a fazer ‘Potinho de Veneno’. Inúmeras músicas da Rita Lee trazem a sensação de que você está ouvindo um ‘rock carnavalesco’, pela atmosfera única que ela conseguia construir, e foi isso que tentamos fazer. Foi lindo ter esse aval e poder produzir isso com tanta verdade”, afirma o cantor

O carnaval também foi influência direta da faixa “Vampira”. Se a primeira tem a participação em mente e espírito de Rita Lee, a segunda conta com Milton Cunha, carnavalesco e comentarista da maior festa popular do país, figura exuberante da nossa cultura. A canção surgiu de uma iniciativa da dupla de produtores Pablo Bispo e Ruxell, prontamente aceita pela banda.

“Quando eles apresentaram ‘Vampira’, a gente ficou muito entusiasmado, principalmente por causa da batida, que tinha um quê de música pop, mas ao mesmo tempo tinha um quê de Cake e do Gorillaz, por exemplo, que são artistas que estão dentro do subgênero do rock. E ela tem essa característica de transformar o rock numa coisa carnavalesca. Acrescentamos a narração do Milton, que tem a energia da música, uma voz impactante e que todo mundo reconhece, essa é a energia da música. É uma música transgressora e extremamente psicodélica, assim como o carnaval”.

Além da sonoridade, o disco conta com um iconográfico audiovisual, com capas assinadas por Pedro Hansen. “Cada capa poderia servir a um filme, um daqueles que talvez nem exista ainda, pois ela traz elementos que aprofundam experiências dentro desse Brasil tão múltiplo, culturalmente falando, mas com cenários. Quando você consegue aliar a trilha sonora à visão cinematográfica do ponto de vista estético, isso traz um poder muito grande, pois alinha a música e o cinema”, comenta.

Dentro da estética audiovisual, o vocalista destacou o que considera a sua faixa favorita do álbum. “O clipe de Rádio Love Nacional é um clipe ‘on the road’, ele não tem uma história, ele não tem um roteiro, ele é uma banda passando por cenários diferentes como se fosse num filme, naquele momento em que o personagem pega a estrada e está viajando por alguma parte da história. Quando essa transição é feita com uma música bacana, ganha um potencial ainda maior.O clipe e conecta com a música e a deixa ainda mais divertida.‘Rádio Love Nacional’, por exemplo, não era minha preferida, mas depois do videoclipe ganhou um outro sentido e passou a ser.”

O peso do passado e a força do presente

Musicalmente, Tico não esconde o árduo processo em produzir “Rádio Love Nacional”. Originalmente o grupo se preparava para um projeto de regravações de sucessos e faixas antigas. Embora parcialmente releituras de outros artistas estivessem no EP “DVersões”, de 2025, por conselho de Rafael Ramos (produtor e atual diretor artístico da gravadora Deck), a banda decidiu investir em um álbum de novas composições. Apesar do desafio de criação do zero, o cantor se impressionou positivamente com a velocidade de preparação. “Nem quando o Detonautas começou, que nós estávamos com muito mais frescor de criação, lá em 2002, nós conseguimos criar na mesma  velocidade que criamos dessa vez. Fiquei em choque. Não dá nem para dizer que é só experiência, porque foi inspiração mesmo”.

Sobre o novo álbum e o desejo de regravações de sucessos, o cantor reflete o quanto é difícil a batalha entre a nostalgia dos fãs e o desejo de se mergulhar no novo. “Quando uma banda tem mais de 14 hits, como é o nosso  caso, você fica aprisionado, de certa forma, dentro desse universo onde as pessoas estão familiarizadas com aquelas músicas. A nostalgia está muito conectada com a memória emocional de cada um e muita gente não abre mão dela. É difícil, mas não é impossível, felizmente conseguimos em alguns momentos. Em 2013, por exemplo, ‘Um Cara de Sorte’ flertava com a nostalgia que existia dos fãs dos anos 2000. Em 2018, lançamos ‘Por Onde Você Anda?’, que flertava com a nostalgia dos fãs que gostaram de ‘Um Cara de Sorte’, que já se tornou nostálgica, mas já foi novidade. Nós atravessamos essas etapas combinando as nostalgias com músicas novas.”

O abraço à espiritualidade conceitual em “Rádio Love Nacional”

Em “Rádio Love Nacional”, o Detonautas procurou uma linearidade lírica entre as canções. Com temas mais pessoais, calcados na espiritualidade, e tópicos sentimentais, o grupo fugiu do lado politizado explorado no “Álbum Laranja” (2021) e a chave de fuga psicológica da proximidade do fim pandêmico de “Esperança” (2022). 

“Fizemos muitas referências à espiritualidade, tanto em ‘No Fim da Encruzilhada’, quanto em ‘Capa Preta’ ou em ‘Antimonotonia’. Nós buscamos uma construção que fizesse sentido para que encaixasse cada música no seu lugar e as pessoas não precisassem pular as faixas. Conseguir esse efeito é uma forma de desconstruir e reconstruir paradigmas, pois, atualmente, o consumo de música não está mais atrelado a um álbum, e sim a uma forma completamente aleatória”.

Sobre o motivo da decisão da mudança de climas politizados para temas mais emotivos e sensíveis, o vocalista afirma que “O Detonautas trata de questões sociais e políticas desde o primeiro álbum. Hoje, em um cenário de grande polarização, talvez o ato mais rebelde politicamente falando, seja acessar o coração das pessoas. Alguns por posições políticas, outros por percepções sociais equivocadas ou por certezas absolutas. Quando você ouve um álbum que acessa universos e lados diferentes e que atinge o lugar da emoção, isso é o revolucionário hoje!”

Aprendizados e caminhos do futuro 

Ao revisitar os arrependimentos e aprendizados de uma longa trajetória, Tico reconhece que “Rádio Love Nacional” expôs a imaturidade do grupo em decisões artísticas do passado. “A gente aprende com os erros, não dá para voltar atrás e consertar. O ‘Rádio Love’ acabou sendo uma oportunidade de entender melhor como nos posicionar, tanto como banda quanto como empresa. É preciso equilibrar criatividade e pragmatismo. No passado, recusamos participar de um programa de televisão por causa de uma música que, na época, não parecia alinhada ao nosso discurso artístico. Hoje eu não veria problema algum nisso”.

Ele acrescenta que muitas oportunidades foram perdidas por insegurança e pela necessidade de provar uma identidade rígida. “Existia essa ideia de que, por sermos uma banda de rock, não poderíamos estar em certos espaços ou fazer playback. Isso era visto como algo ‘vendido’. Hoje enxergo essa postura como infantil. Estar na televisão é uma forma de divulgar o trabalho, de fazer a música chegar às pessoas. Esse entendimento só vem com o amadurecimento. Em muitos momentos, compramos uma atitude rock and roll vazia, em nome de um ideal que nos limitava. Ter uma visão romântica é importante, mas não dá para restringir a própria existência a isso”.

Por fim, ao olhar para o novo capítulo que o álbum inaugura, o cantor destaca a maturidade que a banda alcançou e as possibilidades que se abrem daqui para frente. “Temos muito orgulho do que somos hoje. Somos uma banda segura artisticamente, consciente do nosso valor como marca e sem a necessidade de provar estética para ninguém. Se for preciso fazer movimentos diferentes, não há problema algum. Estamos prontos para nos jogar e mergulhar no que fizer sentido”.

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