*Por Kelvyn Araújo
“Sonhos”, mais recente trabalho da cantora e compositora, reúne parcerias com nomes nacionais e internacionais, além de inúmeros gêneros e influências distribuídos entre oito produtores
Até onde pode ir a capacidade de um artista em se aventurar por sons, estilos diferentes? Com quantos colaboradores trabalhar para extrair tais objetivos? De que forma e que inspirações compilar para alcançar o feito em um álbum que sintetize tais objetivos de forma nunca feita antes em sua carreira? Parece que Luiza Boê respondeu todas essas dúvidas corriqueiras na cabeça de muitos artistas, e dela mesma, em seu novo álbum “Sonhos”.
Lançado no fim de 2025, o ele representa um passo notável na trajetória da cantora e compositora. Natural do Espírito Santo, da sua estreia com a canção “Cocoon”, em 2017, Boê se aventurou em uma estética sonora bastante própria: bucólica, melódica, com elementos intimistas e simultaneamente populares que versam do indie à MPB. A amálgama rendeu anteriormente dois discos: o homônimo “Luiza Boê” (2018) e “Amanheci” (2021), espaçados por um EP: “Terramar” (2019) e sucedidos pelo ao vivo “Amanheci – Especial 1 Ano: Ao Vivo No Showlivre” (2023).
Se tais trabalhos solidificaram o estilo próprio de Boê, a cantora já se preparava para um passo futuro no seu terceiro álbum. De trabalhar com distintas colaborações, experimentar escritas com outros músicos e até regravar pela primeira vez faixas que não eram de sua autoria. De quatro anos pós-lançamento de seu último álbum de estúdio, “Sonhos” vinha ao mundo com a série de experimentalismos puramente Bôenianos.
O trabalho resultante foi uma mescla de muitos fatores, anseios e influências. Gravado entre São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Aracruz (cidades do Espírito Santo, sua terra natal), contou com oito produtores, além da própria Boê: o francês Charles Tixier, Fábio Carvalho, Fernando Catatau, Gustavo Ruiz, Lucas Martins, Marcelo Jeneci e o companheiro da artista, Pedro Carboni. O toque diversificado também esteve nas colaborações nacionais: os quatro últimos citados são paulistas, Fábio é também capixaba e Catatau cearense, que Boê considera como primordiais na criação do trabalho
Em que pese a mudança de Espírito Santo para São Paulo, onde a artista vive há quatro anos, “Sonhos” não é somente regionalista, tampouco apenas cosmopolita. Do som interiorano brasileiro a momentos inspirados pela música alternativa paulista e até o dream pop e a psicodelia europeias, para dar cor e cenário aos sonhos de cada uma das faixas, o disco fornece inúmeras atmosferas com o auxílio de outras colaborações de peso, desta vez nas performances.
Além de Marcelo Jeneci, o arranjador e orquestrador Jaques Morelenbaum, e o grupo vocal originário Coral Guarani Tape Retxakã (cantando em tupi guarani) participam de “Sonhos”. Também está presente o trabalho do grupo paulista Os Amanticidas, com a música “Limbo”, regravada por Boê no álbum.
Em entrevista ao Matraca Cultural, ela abre todo o processo criativo do trabalho, fala dos bastidores sobre as composições, a importância das parcerias e revela os grandes ensinamentos sobre o ato de poder sonhar criativamente.
Matraca Cultural: ”Sonhos” parece a continuação de uma artista em pleno mergulho de carreira. Como enxerga esse trabalho nesse momento da carreira?
Boê: “Sonhos” vem depois de quase oito anos do meu primeiro álbum, então ele é um reflexo de uma trajetória de muito trabalho, estudo, dedicação, descobertas, pesquisa da minha relação com a minha voz, e também de erros e acertos. Então sinto que tanto por eu ter trabalhado com quem eu sonhava em trabalhar, mas também por eu estar muito feliz no lugar em que cheguei musical e liricamente, é um álbum que me dá muito orgulho, é fundamental em todos sentidos e que eu sinto que vai atravessar o tempo.
MC: O álbum é um mergulho de experimentação e distintas produções. Como você enxerga a colaboração de cada um no disco?
Boê: Uma característica do meu trabalho é o reflexo e a celebração da pluralidade da música brasileira. Acho que o fato de eu ter crescido no Espírito Santo, que é um estado marcado pela mistura de pessoas de diferentes lugares, moldou meu olhar. Eu senti de trazer isso de forma ainda mais evidente com esse disco a partir das produções diferentes, então tem o Charles Tixier que é da França com influências eletrônicas; do Espírito Santo tem a produção do Fábio Carvalho numa música que traz o Congo Capixaba, que é uma importante manifestação da nossa cultura popular e tem também o coral indígena Tape Retxakã que traz essa visão ancestral dos povos originários de preservação das florestas e trouxeram os instrumentos deles de percussão e também violino e violão com afinações específicas; tem também o Fernando Catatau que traz o rock romântico e psicodélico da Ceará pro álbum; tem também o Jeneci, que é um músico que tem uma relação forte com a sanfona nordestina pela ancestralidade dele e que é um artista muito sensível. Pedro Carboni, meu companheiro, que é paulistano e que ele foi um grande parceiro tanto nas escritas dos arranjos como também nas produções trouxe o olhar dele pro álbum; e tem a participação do Jaques Morelenbaum, esse grande músico que é ponte na música brasileira entre o erudito e o popular, que veio da orquestra Theatro Municipal, para a banda do Tom Jobim, e tem uma contribuição muito grande para a presença do violoncelo na música popular brasileira.

MC: Pela primeira vez, você assume a direção musical e a escrita de arranjos de cordas, sopros e vocais no álbum. Qual foi o maior desafio em traduzir “imagens do inconsciente” em partituras técnicas e como essa nova função mudou sua percepção sobre si mesma enquanto produtora?
Boê: Eu percebi que essa coisa da direção musical de alguma forma sempre existia no sentido de que eu sempre tive a autonomia de convidar quem eu gostaria que produzisse o disco. Mas sinto que esse trabalho fica mais evidente porque eu convidei muitas pessoas diferentes por uma decisão estética de que eu queria que esse disco soasse como uma grande coletânea de sonhos que sonoramente levassem a lugares diferentes. A escrita dos arranjos foi muito libertadora porque, intuitivamente, isso sempre esteve presente. A partir do momento que a partitura vira um idioma possível, essas ideias intuitivas começam a ganhar mais robustez e camadas, porque aí são vozes dialogando e eu consigo visualizar também onde está cada nota precisamente. Eu mantive a minha intuição como esse grande norte de onde eu quero ir, mas agora com uma ferramenta que me possibilita fazer isso de forma mais complexa e completa. Isso me deu mais ferramentas e possibilidades, porque eu acredito que nós temos um poço criativo que vai enchendo com as nossas referências, habilidades, repertórios. Quanto mais fundo vai esse poço e quanto mais ferramentas disponíveis, mais fundo a criação também consegue ir, porque ela vai ser um reflexo disso.
MC: Esse álbum tem arranjos muito cuidadosos. Lembra algum trabalho mais “complicado” e o mais simples em composição e finalização de faixas?
Boê: Estou muito orgulhosa desses arranjos e letras. As mais simples foram as que recebi em sonhos, porque já vieram prontas [risos]. Eu não diria que houve composições mais complicadas, porque o processo foi muito fluido e a escolha dos produtores foi muito certeira. O Lucas Martins, por exemplo, quando me mandou a primeira versão de “Balanço na Lua”, eu senti que era exatamente como a música tinha que ser e isso aconteceu com todas as outras produções. Nada precisou ser rearranjado ou repaginado.
MC: Pela primeira vez você lança uma música não autoral, a canção “Limbo”, de Luca Frazão, d’Os Amanticidas, em colaboração com o Joaquim. Dessa faixa, o que se conectou tão profundamente com o restante do repertório a ponto entender que ela precisava entrar no álbum e como foi essa parceria?
Boê: “Limbo”, que é a única música não autoral que eu já gravei na vida, é uma música que me moveu muito. Eu ouvi pela primeira vez no show d’Os Amanticidas com Renan Renan, que está no álbum deles, e eu fiquei, eu chorei muito, eu fiquei muito emocionada, porque a melodia linda, a letra linda, já tem uma coisa cotidiana, mas também muito sensível e profunda, e que ressoava um pouco também com que isso que eu senti, que é um pouco que é cantado em “Tsunami”. Então, é uma música que eu sentia e que ela representava um sentimento e uma vivência que estavam vivos em mim, sabe? E por isso ressoou tanto. O Joaquim é muito querido. Ele parece um jovem ancião, tanto pela maturidade musical, como pela personalidade. Ele tem uma coisa muito madura e que ressoou mesmo com o que eu estava buscando para essa música. E sem falar também que ele toca muito, ficou muito lindo.
MC: O álbum tem mais duas parcerias, nas faixas “Meu Mar” e “Saudade Não Envelhece”, com Jaques Morelenbaum, mestre das cordas, e o cantor e compositor Marcelo Jeneci. Por que você buscou colaborações em um trabalho tão pessoal?
Boê: Esse álbum tem muitas parcerias especialíssimas. Antes de tudo, o que me leva a querer colaborar com um artista é a minha admiração pelo trabalho. Eu só colaboro com pessoas que eu ouço e que movem coisas dentro de mim. A música é muito generosa nesse sentido. Foram parcerias que abrilhantaram muito esse disco.
MC: Um dos ápices do álbum é a colaboração com o Coral Indígena Guarani Tape Retxakã em “Sonhar Floresta”. Ela traz uma dimensão profunda do processo de gravação na casa de rezo da aldeia e como você enxerga o papel do artista em “reflorestar o imaginário” do ouvinte em tempos de um colapso ambiental? Desde o início foi deliberada essa participação?
Boê: Dentro desse ṕrocesso, eu li muitos livros sobre o assunto e assisti muitos vídeos que foram muito inspiradores e eu quis fazer uma música sobre o sonho das florestas de pé. Nós estamos muito preocupados com os nossos dramas pessoais e ele. O Krenak falava que 6% da humanidade cuidam de 80% da biodiversidade do planeta, que são os povos originários. Nós temos muito a aprender. Essa música é um manifesto desses aprendizados e sonhos que são muito urgentes. Desde o começo eu queria que tivesse participação de vozes indígenas e, quando eu descobri o trabalho do coral, eu fiquei muito movida e fiz o convite. Cantaram como se fosse uma versão guaraní do que eu canto em português. Foi muito, muito lindo, assim, acho que é das coisas mais importantes que eu já fiz artisticamente.

MC: Você declarou em uma entrevista que Luhli é uma das suas maiores inspirações como compositora. O que motiva essa conexão?
Boê: A Luhli se tornou uma grande referência. Eu a conheci de uma amiga e artista que eu admiro muito, a Natália Lima. Ela tem a Concha, que é um trabalho com mulheres que, inclusive, inspirou a música “Concha”, que está no EP “Terramar”. Ela e a Luhli estavam morando em Lumiar e fomos apresentadas Fiquei muito honrada quando a Luhlli disse que queria me ouvir cantar, mas pouco depois disso ela faleceu. Mas eu tive um grande presente no clipe “Mãe”, música que integra o EP “Terramar”, que eu gravei com a minha mãe e duas crianças que nos representavam. A minha xará Luiza, neta da Luhli, me interpretou como criança. Por isso eu sinto que de alguma forma ela está presente nesse trabalho. Ela fala a música mágica, que conversa com o invisível, com mistério. Quando eu ouvi isso, eu falei: ‘nossa, é isso eu faço, música mágica brasileira’. Ela se tornou uma referência muito importante, que eu pude conhecer pessoalmente.
MC: O que a Luíza que começou com “Cocoon”, em 2017, diria para a Luíza que agora assina arranjos complexos e colabora com tantos nomes importantes?
Boê: Eu sinto que a Luíza criança estaria muito orgulhosa de mim, da minha trajetória e de sonhos. Eu era a menina que ficava dentro do quarto cantando no videokê e escrevendo poemas. O fato de que hoje eu canto, escrevo minhas músicas e apresento isso para público faz eu me sentir coerente com a Luíza de 20 anos atrás, que sonhava em poder fazer isso um dia. E, para a Luíza de 2017, eu diria: ‘confie no caminho, na sua intuição e continue sendo cara de pau!’. Eu acredito muito no que eu faço e na minha coragem, o agir a partir do coração, é o que me possibilita chegar nos lugares, nas pessoas.

