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Enquanto o mundo cobra produtividade, mulheres criam espaços para existir

Clubes de leitura, comunidades de mulheres pretas e coletivos de bordado mostram como esses encontros têm se transformado em territórios de afeto, resistência e pertencimento

Há algo curioso acontecendo enquanto a rotina insiste em engolir o tempo das mulheres. Em salas de reunião online, grupos discutem livros. Na Avenida Paulista, bordadeiras transformam linha e tecido em manifestação política. Em encontros presenciais e virtuais, mulheres que sequer se conheciam passam a compartilhar experiências, inquietações e sonhos.

Em um cenário marcado pela sobrecarga e pela falta de tempo, iniciativas criadas por mulheres têm se multiplicado pelo país. Mais do que hobbies ou atividades para preencher o tempo livre, esses espaços se tornaram pontos de encontro para construir pertencimento, fortalecer vínculos e, em muitos casos, reinventar formas de participação social e política.

Um exemplo é o Entre Pretas Club, uma comunidade de mulheres pretas que cria experiências, conexões e impacto cultural. Criada por Geovana Lima, em dezembro de 2024. “A ideia veio por meio dos comentários de um vídeo no TikTok de algumas meninas que estavam se encontrando para ler um livro. Eu percebi a alta demanda para participar e criei a comunidade”, explica. 

O que começou como clube de livros se expandiu e hoje conta com quase cinco mil mulheres. A comunidade tem os projetos de hobbies, como aulas de produção de velas, pintura em ecobags, entre outros. Também promove o projeto online chamado Conversa de Pretas para falar de temas importantes e relevantes. A última edição reuniu mais de 40 mulheres para discutir sobre a endometriose. “O clube traz esse pertencimento para as meninas que não é possível em nenhum outro lugar. A potência está em oferecer um ambiente onde a mulher negra possa ser reconhecida em sua totalidade. Um espaço que acolhe, mas também incentiva o desenvolvimento pessoal, o cuidado consigo mesma e a construção de uma vida com mais dignidade, autonomia e possibilidades”, conclui Geovanna. 

Para além do pertencimento, vamos discutir política? 

Outro exemplo é o Linhas de Sampa. Com oito anos de existência, é um coletivo de esquerda, que borda pela democracia e pelos direitos humanos. O projeto faz dos panfletos bordados um instrumento de luta. Rita de Cássia Lima, aposentada e bancária durante 28 anos, sempre foi militante de esquerda e hoje faz parte do colegiado do coletivo. 

“O Linhas de Sampa começou inspirado no grupo de bordadeiras que surgiu em Belo Horizonte. Na época, elas se juntaram para bordar uma colcha para dona Marisa Letícia, que estava sendo atacada pela imprensa. Uma companheira chamada Lenira Machado estava em Belo Horizonte e trouxe a ideia do Linhas. Ela era uma mulher de luta, sobrevivente da ditadura, foi torturada e presa junto com a Dilma na torre das donzelas”, afirma Rita. 

Normalmente, a cada terceiro domingo do mês, elas vão para Avenida Paulista na esquina da Peixoto Gomide para bordar e distribuir panfletos com ilustrações e/ou frases, sempre com o mote político. “Bordado está sendo ressignificado no século XXI. Mais do que bordar,  a gente está o utilizando para falar sobre política. Ele é um instrumento de luta”, salienta. 

Além do Linhas de Sampa, existem grupos no país inteiro como Linhas do Rio, Linhas do Horizonte, Linhas da Resistência, grupos em Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre. No estado de São Paulo, a partir da atuação delas, surgiram vários outros coletivos de bordados militantes como Linhas de Santos, Linhas da Ilha (de IlhaBela), Linhas do Mar (Caraguá), Linhas de Itapetim (Mogi), Linhas de Oz (em Osasco) e Linhas Andorinhas (de Campinas). 

Além das rodas na Paulista, elas não param. Vão em feiras, manifestações da esquerda, escolas, congressos além dos inúmeros projetos ao longo dos anos. Rita destaca a ação feita na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) durante a diplomação de 15 de seus estudantes que foram mortos durante a ditadura militar. O coletivo bordou os nomes e rostos dos alunos e deram um bordado para cada familiar. 

Entrega do diploma de Ruy Carlos Vieira Berbert –  Foto: Marcos Santos /USP Imagens

Esse ano, Rita explica que elas irão para ruas todas as semanas durante as eleições. Além disso, também estão bordando uma nova faixa para o coletivo com mote de soberania, “Linhas de Sampa: Bordando soberania com justiça social”. 

Leitura por e para mulheres exaustas 

Já é uma cena comum. Você entra no ônibus, metrô ou consultório médico, todos vidrados na tela do celular. A 6ª edição da obra “Retratos da Leitura no Brasil”, produzida pelo Instituto Pró-Livro, mostra que 81% da população do país usa o tempo livre na internet, enquanto somente 20% leem livros no tempo livre. Em mais um exemplo indo contra a correnteza, a jornalista, mediadora de leitura e pesquisadora em Literatura, Renata Rossi criou o Clube de Leitura das Mulheres Exaustas. 

“O clube nasce do meu contato com mulheres mães. Minha primeira inserção na mediação foi a leitura com bebês em 2018. Muitas mães vinham falar para mim no final da sessão: ‘Eu queria muito ler mas eu não consigo’. Ali, eu vi que tinha um desejo da parte dela”, explica. 

A ideia era montar uma sessão pequena para testar e ver como fluía com foco nas mães. Mas vieram avós, mulheres sem filhos etc. A primeira edição foi em 2024. Atualmente, ela faz os encontros online porque tem participantes no Brasil inteiro. Além de tudo, o clube possui intergeracionalidade, contando com leitoras de 20 anos que estão começando uma carreira e uma vida adulta até leitoras de 70 anos que já são avós. “A gente conhece as pessoas a partir de um lugar muito singular. Para mim, é um motivo de orgulho que elas estejam ali”. 

Renata esclarece que o clube é um grupo de aproximação ou reaproximação com a leitura. Por isso, monta a curadoria com diversidade de temas, estilos e formatos. Geralmente, inicia com leituras que são mais fluidas como contos ou crônicas. “Eu sempre revelo as leituras por bimestre. Não revelo a curadoria do ano inteiro porque por ser um grupo de aproximação/reaproximação, eu preciso saber se está funcionando”. Esse ano, elas já leram obras como Insubmissas Lágrimas de Mulheres, da Conceição Evaristo e A mulher da guarda, da escritora chilena Sara Bertrand. 

“A gente construiu uma comunidade em torno de um objeto que provoca conversas. É sempre único e mágico para mim porque eu também sou uma mulher exausta. Não é atoa que o nome do clube é esse. Eu não abro mão de ler e meu propósito com o clube é mostrar que isso é possível para todas”, finaliza. 

Os exemplos do Entre Pretas Club, do Linhas de Sampa e do Clube de Leitura das Mulheres Exaustas revelam apenas uma parte de um movimento maior. Em diferentes formatos e territórios, as mulheres têm construído espaços para compartilhar interesses, fortalecer laços e ocupar o tempo para além das obrigações. Um movimento silencioso, mas cada vez mais visível.

Foto do encontro do clube após ler Insubmissas lágrimas de Mulheres. Créditos: Renata Rossi.

Bárbara Moraes

Bárbara Moraes

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