MÚSICA

Flerte Flamingo celebra uma década de metamorfose soturna e interregional entre MPB e rock experimental

Leonardo Passovi, vocalista e guitarrista do conjunto baiano relembra processo de produção de “Dói Ter”, seu 1º disco, quebra de rótulos e inspirações composicionais

Minutos após o início de qualquer audição do Flerte Flamingo, fica evidente que a banda de Salvador, hoje radicada em São Paulo, faz música sob uma lógica muito própria de espontaneidade guiada por intuição técnica. O grupo, que iniciou suas atividades oficiais em 2017 e está prestes a completar uma década de experimentações, vive atualmente a ressaca madura de seu primeiro álbum completo, “Dói Ter”, lançado no fim do ano passado.

Se no início da carreira o som era definido por texturas baianas diurnas e o samba e MPB como cernes (o grupo chegou a ser apelidado de “nova sensação do samba MPB”), o hiato pandêmico, as mudanças de formação e a migração geográfica definiram uma identidade consideravelmente mais densa, transformando o Flerte Flamingo em um dos sons mais únicos da música brasileira atual. Isso porque o quarteto de Leonardo Passovi (vocais e guitarras), João Vaz (guitarra e teclas), Bruno de Sá (baixo) e Igor Quadros (bateria) se autoproclama hoje como um grupo de “indie-samba rock”, cujas influências vão de grupos contemporâneos alternativos internacionais como Arctic Monkeys, a veteranos da música nacional gingada, como Jorge Ben, com doses bastante vanguardistas entre ambos polos.

O divisor de águas: da claridade ingênua a “caverna” pós-pandêmica

Historicamente, o recente single “Até de Manhã” pode ser visto como marco zero estético do Flerte Flamingo do citado debut. Ao refletir a importância da composição e da transição dela junto ao novo álbum como uma sedimentação de uma amálgama sonora que hoje abraça pop, reggae, samba e rock em elementos experimentais, Leonardo relembra como a pandemia foi crucial para a mudança estética amadurecida do trabalho recente. 

“É evidente a mudança: o caminho ficou bem menos diurno e colorido do que era antes da pandemia, quando começamos. Isso se refletiu também na nossa identidade visual, na forma como a gente se apresenta; apesar de que no palco a gente fica feliz demais pra manter pose de sisudo”, afirma o músico. 

Essa transição para uma atmosfera mais “soturna e cavernosa” ganhou contornos práticos no estúdio. Em faixas como “Boletim”, a banda buscou deliberadamente texturas mais densas para traduzir o sentimento de isolamento e introspecção. Experimentação semelhante moldou a segunda metade de “O Último Homem”, nascida de jams e improvisos nos momentos de lazer durante a imersão de gravação.

Refletindo sobre o processo de composição do trabalho, envolvente de canções previamente feitas até antes da pré-produção do álbum, Leonardo comenta o quanto a espontaneidade guiou os arranjos mais elaborados, assim como o processo habitual artístico do grupo. Algumas músicas reaproveitadas para o álbum na verdade já foram compostas visando estar nesse repertório. Mas há uma coesão natural entre elas e as que compusemos depois. Essa coesão de arranjos a gente deixou na conta da espontaneidade: como estávamos imersos na produção, fazendo tudo no mesmo ambiente, período e equipamentos, era natural que essas faixas soassem como vindas do mesmo universo das outras. A gente sempre se esgueira em uma boa dose de espontaneidade ao compilar ideias sobre uma canção, seguindo mais o que soa certo do que o pré-estabelecido”.

A construção de “Dói Ter”: um roteiro cinematográfico e emotivo

Em tempos dominados por audições fragmentadas e singles efêmeros nas plataformas de streaming, o Flerte Flamingo defende o formato do álbum completo como uma obra de contexto e empatia. Parte do material de “Dói Ter” já era conhecido do público, mas o grupo ressalta que faixas como “Criatura do Mal” e “Calma, Carolina”, lançadas previamente em arranjos alternativos justamente para testar a temperatura do público mas que, formam, segundo Leonardo, parte de um universo. 

O conhecimento técnico do frontman e guitarrista, moldado pelo curso de Produção Musical, no Conservatório Musical Souza Lima, converteu-se na criação de interlúdios e no uso estratégico de sons ambientes, efeitos e samplers para amarrar o repertório sob uma narrativa linear para além das letras. Sobre a conexão conceitual entre as faixas em tempos onde o consumo de músicas vem cada vez mais fragmentado, Leonardo revela o quanto elas preservam uma identificação dos ouvintes às temáticas abordadas.

“Ao trazer isso pro álbum, a ideia era pôr à serviço de uma sequência de emoções que queríamos propor ao ouvinte como se ele estivesse experimentando em primeira mão as sensações de um final de semana farto e boêmio na Salvador alternativa pré-pandêmica. Toda sexta começa com euforia e expectativa sobre possibilidades e interesses amorosos. Eventualmente somos visitados por sentimentos mais profundos do que a superficialidade da euforia permite. Todo mundo já ficou triste bêbado em um rolê depois de ver alguém ou lembrar de algo. Mas eventualmente a gente volta, cai de novo na gandaia, às vezes quase como uma reação a essa introspecção involuntária, como uma forma de compensar”, diz o músico. 

A reação à tristeza por meio da farra desenfreada é sumarizada na faixa “Ano Que Vem”, definida pela banda como uma “anti música de carnaval”. A canção, além da estrutura anárquica, utiliza samplers caóticos, incluindo áudios de gols dos anos 90, jogos do Corinthians e a histórica briga entre as seleções do amistoso jogo Brasil x Uruguai, em 1976 — memória afetiva que o pai de Leonardo contava e que ilustra a sensação de se perder dos amigos na multidão. “O futebol sempre me foi fonte de inspiração. A ideia ali era criar caos. Aquele momento representa a sensação de se perder dos amigos em um carnaval, festival ou outro rolê de aglomeração vasta e intensa. Um reflexo da retomada sem freios da esbórnia pós-introspecção”.

Outra composição pessoal e intensa do repertório é “Calma, Carolina”. No processo de composição da faixa, o receio da exposição pública de um envolvimento romântico mal resolvido fez o compositor hesitar. Foi o baixista Fernando quem o incentivou a manter a letra, argumentando que a exposição era elegante. O desfecho da história real acabou superando a ficção: anos após o lançamento da primeira versão da música, Leonardo e a Carolina real estão agora juntos novamente. “É sempre sensível expor de maneira direta os sentimentos que se tem, as situações que os provocam, e as pessoas envolvidas nisso. Mas em arte, o limite está sempre no bom gosto. Se não soa bem, não é uma boa ideia, e vice-versa”.

Assumindo o rock: o “Indie Samba-Rock” e a mudança etnográfica

Durante anos, o Flerte Flamingo resistiu ao rótulo de “rock nacional”, se abrigando sob o manto da “nova MPB”. A mudança de perspectiva veio com a substituição do violão pela guitarra e a redução dos elementos percussivos tradicionais. Ao final das gravações de “Dói Ter”, a autocrítica foi inevitável: o trabalho pulsa como samba, samba-reggae, ijexá e brega, mas soa, fundamentalmente, como rock. 

Visto como herdeiro da MPB em início de carreira, o Flerte Flamingo pode ter soado agora distorcido demais para os apreciadores antigos. Em debates entre fãs, foi inevitável o questionamento da mudança estética. “Inicialmente nós  não sentíamos que nossos trabalhos soavam como rock. Trazíamos a herança do rock para o sotaque no instrumento e a performance de palco. Soava mais samba, com violão e texturas bem brasileiras e baianas de percussão. Com o passar do tempo, a percussão perdeu espaço e o violão deu lugar à guitarra, o que foi uma escolha pessoal minha mudar de instrumento, testar ferramenta nova. Era mais uma questão de identificação sonora do que necessariamente algo ideológico ou calculado”, afirma Leonardo.

Para equilibrar a cozinha rítmica brasileira de influências com Gilberto Gil e Luiz Melodia com a crueza linear de bandas como The Strokes e The Killers, o grupo deixa o sotaque indie a cargo das guitarras e texturas melódicas, enquanto a bateria e o baixo frequentemente flerta com rufadas e linhas mais gingadas. Essa sonoridade híbrida foi profundamente moldada pela migração de Salvador para São Paulo, movimento catalisado, segundo Leonardo, pelo fechamento de casas de show na capital baiana pós-pandemia. 

A selva de pedra também reconfigurou a formação da banda. Com as saídas dos, respectivos, baixista e guitarrista/tecladista, César Neto e Digão, e as entradas de Bruno de Sá (integrado em 2022) e João Vaz (membro desde 2025, este em substituição a Gustavo Cravinhos, que tocou no álbum), o grupo se reorganizou internamente. “Hoje nos identificamos como um grupo interregional, por termos dois baianos, um manauara e um carioca. Poucas coisas são tão São Paulo como isso”, brinca o músico..

Essa cornucópia geográfica ditou parte da logística de gravação do disco. Enquanto a base instrumental foi consolidada na capital paulista, o músico viajou sozinho para Salvador para gravar os vocais no estúdio antigo da banda, no boêmio bairro do Rio Vermelho. O isolamento serviu para reavivar memórias, sotaques e elementos essenciais para a interpretação das letras. “Para selar da maneira correta, tinha que trazer alguma coisa da sonoridade do momento que a gente queria registrar no álbum. Então alguma coisa precisava ser gravada no estúdio em que a gente gravava antes da pandemia. Senti que necessitava me cercar um pouco disso para poder imprimir na performance vocal”.

 Capa de “Dói Ter”.

Olhando internamente e adiante: inspirações do hoje e futuro

As influências do Flerte Flamingo vão muito além da música. Durante a imersão de produção do álbum, a banda costumava deixar clássicos do cinema como “O Estranho Sem Nome” (1973) e “O Poderoso Chefão” (1972) passando na TV do estúdio. “Foram dez dias ininterruptos montando arranjos relativamente complexos e cheios de ideias. O filme descansava os olhos e a mente um pouquinho enquanto a gente punha a cuca e as mãos pra trabalhar. Prezamos pela concentração completa”, desabafou Leonardo.

Visualmente, a arquitetura Art Déco de São Paulo e o expressionismo alemão de filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920) e “Frankenstein” (1931) dão o tom estético dos encartes e capas, conversando diretamente com a literatura clássica de várias influências: do regionalismo lírico de Jorge Amado ao beat urbanista de Jack Kerouac. “Tudo isso de alguma forma se imprime nas criações, seja nos textos ou nos arranjos. A gente sentiu, com o álbum já pronto, que os arranjos dão uma sensação de encaixes angulares, o que foi retratado de alguma forma nas capas dos singles e do álbum. Sinto que o Art Déco mora ali também”, destaca.

Com os olhos já voltados para o próximo álbum e o recente single “Que Lado?”, o Flerte Flamingo parece ter deixado o misticismo dos anos formativos para trás em nome de um olhar muito mais profissional, focado e maduro sobre a própria obra. Se o futuro da música independente brasileira parece incerto para muitos, para Leonardo a definição do que são e para onde vão é nítida e direta. “A cabeça já está no próximo álbum, enquanto o corpo ainda vive as etapas necessárias para chegar até o ponto de produzi-lo. Agora a gente quer levar tudo que a gente aprendeu com isso para um próximo nível, sempre mais intenso e forte, sem olhar para trás”.

Kelvyn Araujo

Kelvyn Araujo

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