EXPOSIÇÕES

Exu é tema de nova exposição em cartaz no Museu Afro 

*Por Bárbara Moraes

“Padê – sentinela à porta da memória” reúne obras do acervo e produções contemporâneas até 26 de julho

O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no Parque Ibirapuera, recebe a mostra “Padê – sentinela à porta da memória”, que reúne obras do acervo em diálogo com produções contemporâneas para explorar a presença e a potência de Exu nas culturas africana e afro-brasileira. Com curadoria de Rosa Couto, a exposição fica em cartaz até 26 de julho.

Inspirada nos padês, oferendas dedicadas ao orixá, a mostra articula arte, religiosidade e memória por meio de esculturas, objetos sagrados, pinturas, fotografias e obras africanas. O percurso expositivo evidencia Exu como força de comunicação, transformação e movimento.

Organizada em três eixos conceituais, denominados África, Travessia e Diáspora, a exposição percorre diferentes territórios, temporalidades e interpretações ligadas ao orixá. O núcleo África apresenta visões autóctones de Exu, destacando sua relação com rituais, trocas e processos de comunicação. Já Travessia aborda o orixá como divindade do movimento e dos deslocamentos, associado a encruzilhadas, caminhos e travessias. Por fim, Diáspora explora suas transformações no contexto afro-diaspórico, sua presença em religiões como o candomblé e a umbanda e suas reverberações na arte contemporânea.

“Exu é o princípio do movimento. É a força que rompe a inércia e faz o mundo acontecer. Pensar uma exposição dedicada a ele é refletir sobre memória, transformação e as energias que atravessam as culturas afro-diaspóricas”, afirma a curadora Rosa Couto. 

A mostra reúne artistas como Emanoel Araujo, Sidney Amaral, Gustavo Nazareno, Carla Désirée, Felix Farfan, Ronaldo Rêgo, Mario Cravo Neto, Pierre Verger, Mestre Didi, Moisés Patrício, Georges Liautaud, Rafaela Kennedy, Rochelle Costi e Juliana Araujo, entre outros. Como parte da experiência, a artista Sthe Araújo assina a paisagem sonora da exposição, ampliando sua dimensão sensorial.

Combate à discriminação racial

A abertura da mostra aconteceu em 21 de março, data que marca o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. Segundo pesquisa apoiada pelo Ministério da Igualdade Racial, 84 em cada 100 pessoas pretas relatam já ter sofrido discriminação.

Nesse contexto, a exposição reafirma o compromisso do museu com a valorização das culturas afro-diaspóricas e o enfrentamento ao racismo por meio da arte e da educação.

“Essa mostra surge com esse compromisso de contribuir para um melhor entendimento sobre as culturas africanas e afro-diaspóricas, no intuito de provocar a ignorância dos racistas e dos intolerantes que podem ter aqui um espaço de aprendizagem. A exposição abre a oportunidade para o desenrolar uma série de atividades atreladas à programação cultural do museu, como oficinas, palestras e performances abertas ao público”, explica a curadora da mostra. 

Trilha sonora

Sthe Araújo foi a artista responsável pela criação da trilha sonora da exposição. O convite partiu da própria curadora. “O convite para participar veio da Rosa Couto. Nós temos um trabalho fora do Museu, que é a Funmilayo Afrobeat Orquestra, uma banda de afrobeat formada por mulheres e pessoas não binárias negras”, conta.

Segundo a artista, a proposta foi construir uma experiência sonora que dialogasse diretamente com as obras. “A ideia não era algo musical, compor músicas ou fazer uma curadoria de músicas. Rosa queria algo que tivesse a ver com a temática. Um som que a gente escuta e faz a ligação direta com alguma das obras que estão expostas.”

A trilha incorpora elementos sonoros que evocam rituais e vivências ligadas a Exu. “Tem momentos que a trilha vai para um lugar com som dos elementos, então tem barulho de garrafa de cachaça, pessoas batendo palma, pedindo licença, abrindo os caminhos com o Exu ou até pessoas saudando Exu”, explica.

Mais do que ambientar o espaço, a composição busca provocar sensações e reconhecimento. “Eu gostaria que quem é do Axé se identifique muito com o som. E para quem não conhece, quero causar curiosidade que a pessoa se pergunte de onde vem aquele som, se tem alguém cantando ou se é algo que ela está imaginando.”

Para Sthe, o projeto também marca um momento importante em sua trajetória. “Eu estou muito feliz por estar assinando uma obra. Não é só uma trilha sonora, mas ser uma artista convidada dentro do museu. Isso é muito gratificante”, afirma. “Também como uma pessoa ligada à religião, é algo muito forte e simbólico para o momento da vida que eu vivo.”

A curadora gostaria que o visitante levasse uma nova bagagem de saberes sobre Exu e sua importância para as culturas africanas e afro-diaspóricas. “Além disso, queria que o público fosse tocado pela beleza das obras que compõem a exposição, e que as pessoas levassem para casa uma grande dose de curiosidade e de caminhos abertos para deixar o racismo e a intolerância religiosa para trás”, finaliza.

Serviço
Exposição: Padê – sentinela à porta da memória
Curadoria: Rosa Couto
Comitê Curatorial: Vera Nunes, Renata Dias e Maurício Pestana
Período: de 21 de março a 26 de julho de 2026
Local: Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
Endereço: Parque Ibirapuera – Portão 10 – São Paulo – SP
Viabilização: Lei Rouanet
Patrocínio: Vivo

Matraca Cultural

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