*Por Kelvyn Araujo
Trabalhos incorporam desde de estreias de artistas, novas fases e experimentos em distintos gêneros musicais
São diversos os anos definidores de momentos importantes para a indústria fonográfica nacional, seja para o surgimento de movimentos artísticos, estreias impactantes, grandes álbuns esquecidos, entre outros atributos, e a década de 1970 foi uma das mais prolíficas da história da música mundial e, sobretudo, brasileira.
O ano de 1976 não foi diferente. Perto do nascimento da chamada disco music, no auge da música popular brasileira (MPB) em inúmeros trabalhos de artistas que começavam suas carreiras, rock em alta nas rádios e o samba em um dos seus momentos mais vanguardistas, o período rendeu uma série de grandes álbuns. E aqui, o Matraca Cultural relembra 15 deles — e um pouco da história de cada um. De raridades a grandes clássicos, uma lista que ajuda a resumir o movimentado ano que completa agora, em 2026, bodas de ouro.
“A Voz, o Violão, a Música de Djavan” – Djavan

“A Voz, o Violão e a Música de Djavan” marca a estreia discográfica de Djavan, apesar do cantor e compositor alagoano, por aquela altura, já acumular quase dez anos de carreira. Isto porque artista começou a sua trajetória no fim dos anos 1960, antes de ser cantor contratado de boates e casas noturnas, até finalmente gravar seus primeiros compactos, como contratado da Som Livre, em 1973, onde fez trilhas para novelas, como “Os Ossos do Barão” (do mesmo ano) e “Gabriela” (1975).
Com a expertise prévia e o grande sucesso “Fato Consumado”, que lhe rendeu o segundo lugar no Festival Abertura no fim de 1975, da Rede Globo, o convite para produzir o debut veio e, em duas semanas de gravação, “A Voz” foi finalizado e chegou às lojas. O repertório soa mais enxuto e minimalista em comparação aos discos futuros de Djavan, calcando-se no samba, samba-canção e MPB, com pouca instrumentação além do violão e percussões. A voz aveludada do cantor, porém, já se encontra madura em um repertório de alguns clássicos e forte para uma estréia, incluindo “Flor de Lis”, a própria “Fato Consumado” (regravada com novo arranjo), “Maçã do Rosto”, “E Que Deus Ajude”, que se tornariam sucessos de rádio e de seus shows desde então.
“Mutantes Ao Vivo” – Os Mutantes

1976 marcou a despedida em estúdio do lendário grupo Os Mutantes. Agora com o então único membro remanescente da formação original Sérgio Dias, nas guitarras e vocais, o conjunto, que contou com nomes como Rita Lee, Arnaldo Baptista, Liminha, Dinho Leme, Túlio Mourão, entre outros instrumentistas, passou por duas fases marcantes: a primeira, tropicalista, de grande repercussão, com Rita e Arnaldo junto a Liminha e Dinho; e a segunda, mais progressiva, resultado da fusão da música clássica com o rock.
Essa era anteriormente rendeu “Tudo Foi Feito Pelo Sol” (1974), de vendagens e repercussão mais modestas à época. Para baratear custos e inovar em um formato de gravação que captasse a “ferocidade” dos shows, Dias, junto aos demais membros do Mutantes: Rui Motta (bateria), Paul di Castro (baixo e violino) e Luciano Alves (teclados), resolveram gravar o próximo álbum de inéditas ao vivo. A locação escolhida foi o Museu de Arte Moderna, o MAM, no Rio de Janeiro. O repertório, apesar de esquecido perto dos clássicos da banda, mostra a capacidade do grupo em fornecer momentos mais técnicos, pesados, sinfônicos e virtuosos progressivos da formação, em músicas como as viajantes “Anjos do Sul” e “Sagitarius”, o pot-pourri “Trem/Dança dos Ventos” e a radiofônica “Hey, Tu”.
“África Brasil” – Jorge Ben

Um dos clássicos da fase hermética de Jorge Ben, “África Brasil” é um daqueles álbuns difíceis de acreditar que completam meio século de lançamento. Parte da “eletrificação” de Ben — que a partir deste período e o próximo álbum, “Tropical” (1977) e “A Banda do Zé Pretinho” (1978), abandonaria o violão para seus discos de estúdio —, o trabalho reúne a reverência do compositor ao funk e ao soul e a black music, mesclando ao que ele mesmo chamava de “brasilidade percussiva suingada”, com influências do samba.
Tal direcionamento se deu pela presença de Oberdan Magalhães, líder da banda de funk/soul instrumental Black Rio, que atuou, junto ao produtor Marco Mazzola, nos arranjos das faixas de Ben, referências a figuras históricas reais e personagens afrocentrados fictícios e seus encantos. Clássicos como “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, “Hermes Trismegisto Escreveu”, “Meus Filhos, Meu Tesouro”, “Xica da Silva” e “Taj Mahal” — essa presente em regravação de maior sucesso nesse álbum —, mostram a força e a atemporalidade suingada de “África Brasil”.
“Entradas e Bandeiras” – Rita Lee

Esse disco acabou, ao passar dos anos, sendo um clássico “esquecido” da carreira de Rita Lee. Sucessor do álbum “Fruto Proibido” (1975), aclamado pela crítica, “Entradas e Bandeiras” viu a ex-vocalista dos Mutantes no auge sinérgico da sua parceria com a banda Tutti Frutti, composta por Luiz Carlini (guitarras), Lee Marcucci (baixo) e Sérgio Della Mônica (bateria) e Paulo Maurício (teclados). Apesar de, no imaginário de fãs, não haver nenhum grande sucesso oriundo desse trabalho, o disco reúne alguns dos melhores momentos de Lee no período pré-Roberto de Carvalho, que já no ano seguinte seria seu parceiro musical e pessoal.
Além da música de trabalho “Coisas da Vida” (essa que talvez chegue mais perto de um grande hit, devido à reprodução moderada em rádios da época), “Bruxa Amarela” — gentilmente cedida por Paulo Coelho e Raul Seixas à “Ritinha” —, “Superstafa”, “Troca-toca” e “Lady Babel”, mostram alguns dos momentos mais ácidos da cantora como intérprete e letrista e formam parte do subestimado repertório, indispensável para fãs da veia mais rocker da cantora.
“Imyra, Tayra, Ipy” – Taiguara

Marco na carreira de Taiguara, o álbum marcou a volta do cantor mezzo uruguaio-brasileiro após um período de exílio na Inglaterra. Depois de gravar um disco que acabou arquivado, o músico decidiu fazer de seu novo trabalho um testemunho sonoro do Brasil, de seus ideais e do grito à liberdade.
Reunindo os maestros Wagner Tiso na produção e Hermeto Pascoal nos arranjos, além dos músicos Toninho Horta (violão e guitarra), Jaques Morelenbaum (violoncelo) e Nivaldo Ornelas (sopros), “Imyra, Tayra, Ipy” possui um repertório que transita entre a música originária e indígena (inspiração para o título do álbum), o jazz e a música popular brasileira, com influências particulares amazonenses e mineiras. As letras do álbum refletem símbolos de liberdade em meio de inúmeras metáforas, divididas em 14 faixas compostas para driblar a marcação da Censura Federal. O projeto conceitual é um dos mais belos da história da música brasileira e uma registro artístico do lado poético, vanguardista, perfeccionista (o álbum demorou quase seis meses para ser finalizado) e sentimental de Taiguara, em sua melhor forma.
“Geraes” – Milton Nascimento

Outro trabalho que soa como um tributo à música brasileira é “Geraes”, de Milton Nascimento. Sucessor direto de “Minas” (1975), o álbum é o resultado de um período de pesquisa e reflexão sobre a música que ele queria fazer e as referências da América Latina na época.
Diferente do citado LP, além de trabalhos anteriores como “Clube da Esquina” (1972), “Milagre dos Peixes” (1973) e “Native Dancer” (1974), Bituca procurou abranger primariamente os sons latino-americanos para compor “Geraes”, que segundo o título, representava a generalização sonora latina. As participações da argentina Mercedes Sosa, do grupo chileno Água e dos brasileiros Chico Buarque e Clementina de Jesus dão o toque mais regional do álbum, um dos mais experimentais de sua carreira. Músicas como “Menino”, “Circo Marimbondo”, “Promessas do Sol”, “A Lua Girou”, “Volver A Los 17” e “Minas Geraes” mostram a riqueza sonora do emocionante repertório.
“Deus, A Natureza e A Música” – Hyldon

Segundo álbum do cantor e compositor baiano, “Deus” mostra um lado mais amadurecido e de novidades artísticas do músico, que havia lançado no ano anterior “Na rua, Na Chuva, Na Fazenda”, seu LP de estreia, que contou com a faixa-título e “As Dores do Mundo” como principais sucessos.
O trabalho, assim como as origens e referências de Hyldon antes mesmo do início da sua carreira discográfica, era calcado no soul e na black music, com elementos pop. Para o segundo álbum, o artista expandiu o leque de influências para o jazz, a música gospel norte-americana, o forró e até o erudito, resultando em uma produção mais robusta e luxuosa, que reúne alguns dos melhores arranjos e performances de sua trajetória. Com participações da banda de jazz funk Azymuth, do trompetista Márcio Montarroyos, da cantora Solange Rosa e da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em canções como “Homem pássaro”, “Adoração”, “Sheila Guarany” e “Búzios”, é uma audição obrigatória.
“Terreno Baldio” – Terreno Baldio

1976 foi um ano chave para o rock e a música progressiva brasileira tanto para veteranos quanto para grupos novos. Esse foi o caso do Terreno Baldio. Fundado em São Paulo no início da década de 1970, o grupo lançou seu álbum de estreia há 50 anos. Com uma formação de Mozart Mello (guitarras), Roberto Lazzarini (teclados), João Ascenção (baixo), Jô (bateria) e Fusa) (vocais e percussão), o álbum é uma amálgama deliciosamente louca de rock, música dodecafônica, avant-garde, jazz e música clássica e pop nas suas faixas.
Abrilhantado por alta técnica dos músicos, o repertório é cheio de grandes faixas, como“Pássaro Azul”, “Despertar”, “A Volta” e “Grite”, essa última uma composição símbolo do tom libertário e anárquico da banda em plena ditadura militar.
“Cartola II” – Cartola

Cartola foi um dos casos idiossincráticos da nossa música. Sambista prolífico em composição e agitação cultural do movimento popular desde os anos 1930 escrevendo inúmeros clássicos, só obteve contrato de gravação como artista solo independente nos anos 1970, lançando seu álbum homônimo de 1974, de clássicos como “Disfarça e Chora”, “O Sol Nascerá” e “Alegria”.
Porém, é “Cartola II”, de 1976, que é o grande magnum opus da sua fase final (o cantor e compositor morreria em 1980). Incluindo um repertório imbatível, reúne as suas faixas mais famosas como “O Mundo é Um Moinho”, “Peito Vazio”, “As Rosas Não Falam” e “Sei Chorar”. Além delas, o álbum inclui duas faixas com a participação da sua filha, Creusa: “Sala de Recepção” e “Ensaboa”. O disco também conta com a colaboração de nomes mais contemporâneos, como o também cantor/compositor Candeia e o sambista e violonista iniciante à época Guinga.
“Doces Bárbaros – Ao Vivo” – Doces Bárbaros

Batizado com o nome de uma música de Caetano Veloso, “Os Mais Doces Bárbaros”, o supergrupo formado pelo quadrilátero supremo da MPB Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano e Gal Costa, foi ensaiado e considerado por anos, mas pelos inúmeros compromissos profissionais, apenas em 1976 saiu do papel para uma série de apresentações, que devido ao enorme sucesso, renderam um álbum único em todos os sentidos.
Contando com composições novas, especialmente para o projeto, de Caetano e Gil, além de regravações, “Doces Bárbaros – Ao Vivo” acabou sendo lançado como álbum duplo, tamanha a força das canções. Com elementos tropicalistas, de rock e samba no repertório, a mescla difícil de quatro artistas de gênio e personalidades artísticas tão fortes rendeu um álbum clássico que é prato cheio para fãs de performances menos lembradas da MPB, mas repletas de visceralidade e misticismo.
“Há Dez Mil Anos Atrás” – Raul Seixas

Quinto álbum solo de estúdio de Raulzito,”Há Dez Mil Anos Atrás” representou uma volta ao misticismo e ocultismo que marcou o auge da sua carreira discográfica, uma das mais meteóricas do país desde o lançamento de “Krig-Ha, Bandolo!” (1973). Isso se deu após uma menor vendagem do disco“Novo Aeon” (1975), no qual Raul adotou uma abordagem maior sobre temas humanos, com letras filosóficas, existencialistas e românticas, além do visual mudado, com corte de cabelo mais curto e roupas sóbrias.
Apesar da faixa-título “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás” ser provavelmente a mais lembrada do LP, outras composições como “Eu Também Vou Reclamar”, “O Homem”, “Os Números” e “Quando Você Crescer” mostram a capacidade do cantor, que vivia o auge de sua parceria com Paulo Coelho, em trabalhar letras de tom crítico a convenções sociais e comportamentais.
“Vivo!” – Alceu Valença

Segundo álbum solo da carreira de Alceu Valença, “Vivo!” é um daqueles clássicos trabalhos que não têm hits radiofônicos e tampouco é um dos mais consumidos da trajetória do artista pernambucano. Entretanto, a força musical do disco, gravado ao vivo no Teatro Tereza Rachel durante o espetáculo “Vou Danado Pra Catende”, mostra a originalidade de Alceu em nível máximo.
Acompanhado da banda Ave Sangria como seu grupo de apoio e Zé Ramalho, desconhecido à época, nos violões e guitarras, o espetáculo — e, por conseguinte, o álbum — era um registro da força de Alceu em um repertório extremamente original, simultaneamente psicodélico, feroz, regional e lírico. Músicas como “Sol e Chuva”, “O Casamento do Rouxinol com a Raposa”, “Edipiana Nº 1” e “Punhal de Prata” mostram a importância de “Vivo!” como um registro marcante deste período inicial do artista, além da emocionante reinterpretação de “Papagaio do Futuro”, que Alceu já apresentara junto de Geraldo Azevedo e Jackson do Pandeiro na edição do Festival Internacional da Canção de 1972.
“Lição de Vida” – Elza Soares

“Lição de Vida” representou um período transicional para a carreira de Elza Soares. Depois de assinar com a Tapecar, a cantora já tinha lançado dois álbuns – um homônimo (1974) e “Nos Braços do Samba” (1975) – produzidos por Ed Lincoln, que a ajudou a selecionar o repertório, como arregimentar arranjos e parceiros.
Nesse ínterim, ela descobriu que estava grávida do jogador Garrincha, com quem era casada. Durante a preparação e finalização do álbum, a cantora estava prestes a parir e no puerpério, já que Manuel Francisco dos Santos Júnior, apelidado de Garrinchinha, nasceu enquanto o trabalho estava em finalização. Por isso, o disco apresenta um tom mais pessoal, no qual ela optou por faixas que tivessem significado para ela, seja por admiração própria aos compositores ou por gostar das letras. Apesar de ao longo dos anos, a escolha dos sambas — desconhecidos do grande público — ter sido estranhada por críticos pela não-obviedade, músicas como “Malandro”, do então iniciante Jorge Aragão, a faixa-título e “Samba, Minha Raiz”, de coautoria de Dona Ivone Lara, mostram a força vocal de uma das intérpretes mais aclamadas do país em uma das suas fases menos lembradas.
Guilherme Arantes – Guilherme Arantes

O álbum de Guilherme Arantes que leva seu nome, marcou a estreia de sua carreira solo. O cantor e compositor era considerado uma “jovem promessa” da música popular brasileira, isso porque anteriormente ele havia sido tecladista e vocalista da banda de pop progressivo Moto Perpétuo, com quem havia lançado um LP, homônimo, em 1974.
Com a experiência de um estilo sofisticado e melódico de cantar e compor, a Som Livre estreitou laços com Arantes para a produção do single, “Meu Mundo E Nada Mais”, que seria incluído na trilha sonora da novela “Anjo Mau”, da Rede Globo, que era detentora do selo. . Com a grande repercussão da música, que veio a ser a segunda mais executada de todo o ano de 1976, o processo para a realização do álbum de estreia do cantor e compositor foi acelerado e, ainda naquele ano, “Guilherme Arantes” chegava às lojas. Contando com baladas, canções semi-sinfônicas, números pop dançantes e composições progressivas, o disco encanta por um charme passional e imponente, permeado por outras faixas como “A Cidade e a Neblina”, “Antes da Chuva Chegar” e “Cuide-se Bem”, que também ganhou espaço em outra trama global, “Duas Vidas”.
“Falso Brilhante” – Elis Regina

Fruto do espetáculo homônimo realizado por Elis Regina entre 1975 e 1977, “Falso Brilhante” originalmente não havia sido concebido como álbum de estúdio da cantora, mas veio no melhor momento possível. O show, que apresentava canções que contavam a história, vida e carreira da Pimentinha, além de reflexões sobre o momento que o Brasil vivia, se tornou tão poderoso, que precisava ser, nas palavras da própria, “imortalizado em estúdio”.
Sob direção musical de César Camargo Mariano, seu marido à época, o álbum acabou sendo gravado à toque de caixa a pedido da gravadora Phonogram. Pela intensa demanda de shows, apenas dois dias foram reservados para a gravação das canções para o LP, uma pedra angular da MPB setentista. O disco possui uma série de clássicos do cancioneiro de Elis imprescindíveis de serem ouvidos, entre eles: “Como Nossos Pais”, composição do estreante Belchior; “Um por Todos”, da dupla Aldir Blanc e João Bosco”; “Tatuagem”, de coautoria de Chico Buarque;, “Gracias a la Vida”, gravada originalmente por Violeta Parra. e “Fascinação”, versão da composição de Armando Louzada para uma valsa francesa tradicional de 1904.

