O olhar curioso que leva ao toque, ao cheiro, à exploração. Os móveis que parecem imensos, os objetos que ganham outros significados, os sons que despertam lembranças e a maneira particular de sentir o mundo. Tudo isso está presente na exposição Primeiras Infâncias Brasileiras, em cartaz no Solar Fábio Prado, em São Paulo, que propõe aos adultos uma espécie de viagem de volta à infância — não para lembrar apenas como éramos, mas para experimentar como os pequenos percebem e descobrem o mundo. Realizada pela Intercultura e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a mostra percorre os primeiros seis anos de vida e transforma o visitante em participante da experiência.
O percurso começa pelo hall com a temática “No chão das infâncias”, onde a mudança de escala já provoca um deslocamento do olhar e os sentidos convidam a tocar, observar, testar e experimentar. É como se, por alguns instantes, o adulto precisasse reaprender a ocupar o espaço. Na sequência, a sala 1 “O extraordinário de crescer” chama atenção para a intensidade dos primeiros anos, quando corpo, emoções, pensamento, linguagem e relações estão em permanente transformação. A proposta ajuda a perceber que cada pequeno gesto — um movimento, uma descoberta, uma tentativa — carrega uma enorme dimensão no processo de desenvolvimento.
Na sala 2 “Na rede do cuidar”, a exposição desloca o foco para os vínculos. Cuidar aparece não apenas como uma ação individual, mas como uma construção que envolve família, comunidade, serviços e redes de apoio. Já na sala 3 “Primeiras infâncias plurais” amplia ainda mais o olhar ao apresentar diferentes maneiras de viver a infância no Brasil. Vozes, imagens e relatos revelam que não existe uma única experiência de ser criança: existem diferentes territórios, culturas, modos de vida e, também, desigualdades que fazem com que os direitos não sejam vividos da mesma maneira por todos.

E então chega a hora de se divertir. Na sala 4 “Na roda do brincar” mostra que uma caixa pode virar casa, um tecido pode se transformar em cabana e um simples objeto pode abrir portas para mundos inteiros. Mais do que entretenimento, o brincar aparece como linguagem, descoberta e direito, dependente de tempo, liberdade, segurança e espaço para a imaginação. O último espaço, “Construir o país com as crianças”, amplia a reflexão: bebês e crianças pequenas não são apenas cidadãos do futuro, mas sujeitos de direitos no presente.
É justamente nesse ponto que a exposição ultrapassa a perspectiva lúdica e ganha uma dimensão histórica e social. Ao apresentar os caminhos percorridos para o reconhecimento e a garantia dos direitos da infância, a mostra lembra que cuidar, proteger, educar, brincar e garantir dignidade são conquistas que resultam de processos coletivos. No Brasil, esse percurso inclui marcos como a Constituição Federal de 1988, que estabeleceu a prioridade absoluta dos direitos de crianças e adolescentes, o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, e o Marco Legal da Primeira Infância, de 2016.
Ampla, colorida e totalmente interativa, a exposição provoca de maneira sinestésica. É possível ouvir histórias e relatos, observar diferentes realidades, deixar marcas e impressões e, sobretudo, perceber que cada experiência infantil ajuda a construir uma maneira de enxergar o mundo e estabelecer relações. Por isso, não é uma mostra para ser percorrida com pressa. Ela pede tempo, escuta e disponibilidade. Talvez seja preciso diminuir o passo, como as crianças fazem, para reparar no que normalmente passa despercebido.
Serviço:
Primeiras Infâncias Brasileiras
Local: Solar Fábio Prado:
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 Jardim Paulistano, São Paulo/SP
Quando: até 20 de setembro de 2026: Terça a Domingo, das 10h às 18h
Mais informações: https://primeirasinfanciasbrasileiras.org/

