TURISMO CULTURAL

Festival Arte Serrinha celebra encontros entre arte e natureza

24ª edição do evento reuniu artistas de diferentes países e destacou o trabalho da Fazenda Serrinha nas áreas da cultura, educação e restauração ambiental

Muito antes de a relação entre arte contemporânea, regeneração ambiental e experiências imersivas ganharem espaço no debate cultural, a Fazenda Serrinha já experimentava esse caminho. Há mais de três décadas, o espaço constrói uma trajetória que une produção artística, educação e preservação ambiental. Essa vocação voltou a ganhar força entre os dias 6 e 26 de julho, durante a 24ª edição do Festival Arte Serrinha.

Neste ano, a programação teve como eixo o tema Portunhol Selvagem, conceito criado pelo poeta Douglas Diegues que propõe uma linguagem marcada pelo encontro entre culturas, territórios e identidades latino-americanas. O autor o define como “la língua falada en la frontera du Brasil com u Paraguai por la gente simples que increiblemente sobrevive de teimosia, brisa, amor al imposible, mandioca, vento y carne de vaca“. O evento reuniu artistas, pesquisadores e educadores em torno de experiências que ultrapassam o palco, composta por masterclasses, performances, oficinas e apresentações conduzidas por artistas de diferentes países da América Latina. 

O artista e curador do festival, Fábio Delduque, explica que a escolha do tema aconteceu há cerca de dois anos, influenciada pelo músico e pesquisador Benjamin Taubkin. “Apesar de termos decidido o tema há algum tempo, ele se provou incrivelmente atual. Esta edição deixou clara a importância da diplomacia dentro das artes. Durante as masterclasses, cada artista apresentou um instrumento do seu país, evidenciando a importância da conexão entre diferentes culturas”, afirma. 

O público acompanhou de perto a intensa troca entre os artistas, especialmente no espetáculo de encerramento, que reuniu Benjamin Taubkin, Aline Gonçalves, Noa Stroeter (Brasil), Juan Falú (Argentina), Miguel Ballumbrosio (Peru), Jorge Glem (Venezuela), Urian Sarmiento (Colômbia), Juanjo Corbalán e Lara Barreto (Paraguai), Nacho Seijas (Uruguai) e Chieko Donker Duyvis (Holanda). Para a próxima edição, a água será o eixo temático do festival e deve reunir artistas de países como China, Canadá, Chile e outras nações.

Divulgação: Festival Arte Serrinha

Uma história que atravessa gerações

A história da Fazenda Serrinha ajuda a explicar a identidade do festival, construída ao longo de mais de duas décadas. A propriedade teve origem em 1899, quando o major Benedicto Moreira adquiriu uma série de sítios na região de Bragança Paulista. No decorrer do século XX, o local acompanhou as transformações do campo brasileiro. A produção de café deu lugar à pecuária, ao cultivo de eucalipto e à extração de argila para olarias, até que, na década de 1990, a família decidiu mudar os rumos da propriedade e as atividades produtivas foram gradualmente substituídas por um projeto voltado à restauração ambiental, à educação e à cultura.

Nas últimas décadas, mais de 50 hectares de áreas degradadas foram reflorestadas por meio do plantio de aproximadamente 80 mil árvores nativas da Mata Atlântica, trabalho que contribuiu para a recomposição da vegetação, o fortalecimento dos corredores ecológicos e o retorno da biodiversidade local. 

Para Delduque, bisneto do fundador e responsável pelo projeto atualmente, o compromisso da iniciativa é dar continuidade ao legado familiar, mas respondendo aos desafios do presente. “Meu bisavô foi um grande advogado, político, abolicionista e fundador de um jornal, e participou da construção da história da região. A nossa escolha foi transformar a Fazenda Serrinha em um espaço de regeneração, onde arte, educação e natureza caminham juntas. O festival é a expressão mais visível desse trabalho, mas ele acontece todos os dias, no reflorestamento, nas atividades educativas e nas pessoas que passam por aqui e entendem que é possível construir outra relação com o território”, afirma.

Essa combinação entre memória, sustentabilidade e produção artística faz do Festival uma referência nacional. Mais do que palco para um evento anual, o espaço consolidou-se como um laboratório permanente de criação, aprendizagem e sustentabilidade, onde o passado inspira novas formas de imaginar o futuro.

Bárbara Moraes

Bárbara Moraes

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