*Por Kelvyn Araujo
Faixas de distintas bandas e artistas foram diretamente inspiradas na obra, suas adaptações e seus aspectos, além de ajudarem a entender a clássica história de Emily Brontë.
Recentemente, mais uma adaptação de “Wuthering Heights”, chamada no Brasil de “O Morro dos Ventos Uivantes”, chegou às telonas. Dirigida por Emerald Fennell e estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis imortalizados de Cathy Earnshaw e Heathcliff, respectivamente, é mais uma das versões do famoso romance de Emily Brontë, originalmente publicado em 1847.
É difícil precisar um número exato de possíveis leituras da história. Por se tratar de um clássico da literatura e uma narrativa conhecida, novas produções (incluindo curtas-metragens e releituras de nicho menor, como séries independentes, sem apoio de grandes produtoras) surgem constantemente. Estima-se que existam mais de 50 recontagens audiovisuais do enredo, abrangendo cinema, TV e programas unitários, incluindo sessões de exibição única, como teleteatros. Isso, claro, sem contar as versões literárias e as teatrais.
Mas não somente nas telas a trama obteve e ainda mantém uma sobrevida, na música ela rendeu grandes clássicos. Inúmeros artistas e grupos se inspiraram no romance proibido de Cathy e Heathcliff e na intensidade dos sentimentos de ambos, além de falas diretas dos dois nos livros e em produções cinematográficas, que foram fonte para a criação de canções que mesclavam a narração dos fatos pelo instrumental e pelas letras.
Aqui, o Matraca Cultural lista cinco dessas faixas, além de relembrar a trajetória de cada uma delas e as suas correlações com o livro e, em determinados casos, às suas adaptações.
Wuthering Heights – Kate Bush (1978)
Talvez a mais conhecida transposição musical da história, a versão de “Wuthering Heights”, de Kate Bush, resume composicionalmente o cerne principal do enredo: um sentimento crescente e arrebatador de Cathy e Heathcliff, praticamente criados como irmãos, mas que se apaixonam. A faixa parte de um ponto interessante: o olhar da protagonista e suas lembranças à beira da morte sobre o amor que sentira.
A composição veio da paixão de Bush por obras cinematográficas e literárias, que serviriam de base para outras canções ao longo de sua carreira. Embora seja erroneamente creditada como inspirada apenas pelo romance, a icônica interpretação épica, sensível e quase operística da cantora britânica foi oriunda da adaptação em filme de Robert Fuest, de 1970. Ao ligar a TV durante os dez minutos finais do longa, que era reexibido pela BBC no mês de março de 1977, a então compositora de 18 anos finalizou a canção na mesma madrugada. Embora relutante em lançá-la como seu single de estreia, a gravadora EMI concordou, após insistência de Bush, e a música se tornou um hit mundial no ano seguinte, alcançando o primeiro lugar em sete países, incluindo o Reino Unido e o Brasil.
Unquiet Slumbers For The Sleepers / In That Quiet Earth / Afterglow – Genesis (1976)
Pot-pourri final do álbum “Wind and Wuthering” (1976), a série de três músicas narra musicalmente os momentos e afetos entre os personagens centrais por meio de cinco fases: o carinho inicial, os instantes marcantes juntos, o desafio em concretizar a união quando se descobrem apaixonados, o reconhecimento do sentimento e a declaração final de Heathcliff à amada que parte.
A maioria da tríade de faixas é instrumental, descrevendo tais passagens por meio de sequências etéreas, barrocas, fortes e pesadas, com um encerramento romântico em “Afterglow”, única das três inteiramente vocal. O título das seções instrumentais faz alusão direta ao livro, já que formam as frases finais da obra original de Brontë, que também inspirou o nome do disco, baseado em líricas alusivas ao Romantismo e à literatura gótica, além de contos de suspense e humor surrealista.
Farewell to the Fairground – White Lies (2009)
Embora não seja uma adaptação literal, Harry McVeigh, integrante do grupo de post-punk e rock alternativo, revelou que o clima de isolamento e romantismo sombrio da obra influenciou diretamente a música. A letra fala sobre o ato de se perder em lugares inóspitos, ecoando a relação das figuras com as charnecas (the moors), também citadas no livro original.
A alusão ao refúgio destes locais em relação às lembranças do passado e a fuga constante das mesmas é um referencial metafórico da escrita e que se relaciona ao livro, sobretudo quando Heathcliff resolve se envolver com outra mulher, Isabella Linton, na tentativa de esquecer Cathy. O clima dançante, frenético e pop soturno da melodia torna esta abordagem musical distante do lirismo poético e melancólico da obra original, mas ainda ligado ao enredo.
Ice Queen – Within Temptation (2000)
Mais um exemplo de inspiração não ipsis litteris, na música da banda de metal sinfônico são utilizados elementos que formam a estética da mulher espectral e poderosa na natureza, capaz de ser firme como o gelo nas suas convicções e intensidade.
Na obra, Catherine Earnshaw torna-se fria (social e emocionalmente) quando decide se casar com Edgar Linton por status, sufocando seu verdadeiro desejo por Heathcliff. Ao mesmo tempo, a referência gélida, calcada em um instrumental pesado com elementos orquestrais de influências do metal melódico e power metal, espelha o estado da personagem após trair sua própria essência: ela se torna inacessível, pálida e que precisa quebrar o gelo que se tornara.
It’s Alright (Baby’s Coming Back) – Eurythmics (1985)
Uma das famosas composições da dupla de art pop formada por Dave Stewart e Annie Lennox, “It’s Alright” se baseia no pós-morte de Cathy, no ato final do livro, onde Heathcliff, consternado pela sua perda, pede que ela lhe assombre e apareça em espírito para sempre. Prometendo, em suas palavras, “sempre voltar e nunca o deixar”.
Assim, a faixa faz paralelos a minuciosos momentos do dia, objetos, sinais e memórias em que um está com o outro, das formas mais poéticas às mais sombrias, exemplificando o laço eterno dos dois. Tanto quanto a sonoridade dark pop cinematográfica e sintetizada da canção, o clipe possui ainda mais influência de “O Morro dos Ventos Uivantes” (na famosa adaptação de 1939, dirigida por William Wyler), com Dave Stewart e Annie Lennox em cenários que lembram as charnecas britânicas, evocando a ideia de um amor ecoante que atravessa barreiras, como o fantasma de Cathy na vida de Heathcliff.

