Em um país que tantas vezes reconhece seus grandes artistas postumamente, homenagear nossos ídolos em vida é um gesto de grande nobreza. O cantor Ney Matogrosso está testemunhando, em vida, o impacto da sua obra na história do cenário cultural do Brasil. O musical “Ney Matogrosso – Homem com H”, que conta e canta a trajetória do cantor, é uma das homenagens ao seu legado. A produção realiza suas últimas apresentações em São Paulo, no Teatro Porto e fica em cartaz até o dia 29 de março, com sessões de sexta a domingo.
Essa não é a primeira grande reverência à sua obra. No último carnaval, o cantor foi homenageado pela escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense. Com o enredo “Camaleônico”, a agremiação celebrou sua versatilidade e potência artística. Aos 84 anos, Ney desfilou em um dos carros alegóricos, em um momento de reconhecimento público.
Em 2025, sua história também ganhou as telas com o filme “Homem com H”, protagonizado por Jesuíta Barbosa. Sucesso de audiência, a produção ultrapassou 600 mil espectadores nos cinemas brasileiros e se tornou o longa mais assistido no streaming por ocasião de sua estreia.
Já na versão musical, a dramaturgia assinada por Emílio Boechat e Marilia Toledo costura episódios da vida pessoal e artística do cantor. O espetáculo percorre desde as tensões familiares até a explosão criativa à frente dos Secos & Molhados, passando pela carreira solo, sua relação com Cazuza e a perda de um grande amor durante a epidemia de Aids, nos anos 1980, que devastou parte significativa da população gay ao redor do mundo.
A história se inicia em um show dos Secos & Molhados, em plena ditadura militar, quando Ney é alvo de um insulto homofóbico vindo da plateia. A cena se entrelaça com lembranças da infância e adolescência do artista e desencadeia uma sucessão de episódios marcantes. A escolha de abrir o espetáculo com esse momento é reveladora: falar de Ney Matogrosso é falar de enfrentamento, identidade e liberdade.
No papel principal, Renan Mattos evita o clichê e o biografismo engessado. Sua interpretação busca acessar a energia, a multiplicidade e o caráter indomável do artista. “Não me sinto interpretando Ney, mas pedindo licença para acessar tudo o que ele transformou na música e na vida das pessoas, os caminhos que abriu para artistas como eu”, afirma o ator.
Ele complementa ao destacar a complexidade do homenageado. “Ney é um ser camaleônico, com um lado íntimo e reservado, mas também profundamente catártico no palco. Em cada música, apresenta uma nova persona, sempre carregada de algo místico, misterioso e selvagem”.
Talvez o maior mérito do espetáculo seja evidenciar a atualidade do artista. Sua postura transgressora nos anos 1970, enfrentando a censura com o corpo, a ambiguidade e a liberdade, é relevante e atual até mesmo no Brasil contemporâneo. O musical trata sua trajetória como algo vivo, latente, urgente e provocador.
“Ney Matogrosso – Homem com H” é, acima de tudo, uma celebração de um artista que fez da liberdade sua marca. Um criador que se recusou a caber em rótulos e que continua inspirando novas gerações, agora com a rara oportunidade de testemunhar, em vida, a dimensão de seu legado.
Serviço:
Ney Matogrosso – Homem com H
Até 29 de março de 2026 .
Sessões: Sextas e sábados às 20h e domingos às 17h.
Duração do espetáculo: 3 h (com 15 minutos de intervalo)
Teatro Porto – Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos
Ficha Técnica
Texto: Marilia Toledo e Emílio Boechat. Direção: Fernanda Chamma e Marilia Toledo. Coreografia: Fernanda Chamma. Direção Musical: Daniel Rocha. Cenografia: Carmem Guerra. Figurinos: Michelly X. Visagismo: Edgar Cardoso. Desenho de som: Eduardo Pinheiro. Desenho de luz: Fran Barros & Tulio Pezzoni. Preparação vocal: Andréia Vitfer. Realização: Paris Cultural.
Patrocínio: Porto Seguro
Produção Geral: Paris Cultural
Elenco por ordem alfabética:
Renan Mattos (Ney), Bruno Boer (Ney Cover), Bruno Narchi (Cazuza), Vinícius Loyola e Nando Motta (João Ricardo, Nilton Travesso e Luís Fernando Guimarães), Giselle Lima (Beíta, Renate Beija-Flor e Sandra Pera), Hellen de Castro (Rita Lee, Sylvia Orthof, Gilda e Yara Neiva), Enrico Verta (Gerson Conrad, Eugênio, André Midani e Frejat), Abner Debret (Vicente Pereira e Vitor Martins), Maria Clara Manesco (Luli, Lidoka e Fã), Tatiana Toyota (Elvira, Rosinha de Valença) Léo Rommano (Titinho, Moracy do Val e Arthur Moreira Lima), Ju Romano (Lena, Regina Chaves), Lucas Colombo (Marco de Maria), Maurício Reducino (Ensemble), Murilo Armacolo (Ney jovem e Mazzola), Valffred Souza (Ensemble), Vitor Vieira (Matogrosso e Guilherme Araújo) e Oscar Fabião (Dódi e Grey).
Banda
Teclado 1 e Regência – Rodrigo Bartsch
Teclado 2 e sub de Regência – Renan Achar
Bateria e percussão – Kiko Andrioli
Trombone, Trompete, Flugel – Renato Farias
Baixo Elétrico, acústico e violão – Eduardo Brasil
Reed (Sax Tenor, Clarinete, Clarone, Flauta) – Tico Marcio

