*Por Kelvyn Araujo
Movimento artístico do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 ganha sobrevida no consumo de músicas, roupas e possui até “festas temáticas” no Brasil
O TikTok ecoa, em meio a composições antigas que ressurgem nas redes sociais, um refrão embalado por arranjos pop elegantes, vocal feminino marcante e um instrumental cristalino de influências da disco music, do funk e da música asiática. Trata-se de “Mayonaka no Door”, da cantora japonesa Miki Matsubara (impulsionada pelo seu famoso verso “stay with me”).
Paralelo ao enorme sucesso que a faixa, originalmente lançada em 1980, faz entre as novas gerações, ocorre a redescoberta do chamado city pop, gênero que estourou no Japão no fim dos anos 1970 e nos 1980 e mesclava pop, jazz e disco com uma pitada oriental única e contagiante. O estilo surgiu em um contexto particular: o Japão estava em pleno processo de industrialização. O êxodo de jovens de áreas periféricas para os grandes centros resultou em uma ânsia de produtores e artistas por composições que retratassem o cotidiano da crescente juventude urbana, as rotinas noturnas em bares e relacionamentos aflorados. Estava pronta a fórmula conceitual do gênero.
O city pop acabou comparado, em termos estilísticos, a um “irmão” no Ocidente: o adult-oriented rock (AOR), que apresentava, em vez das influências nipônicas, pitadas dosadas de rock. Embora tenha sido tendência até o fim dos anos 1980, o gênero perdeu fôlego e parecia ser um modismo do passado à partir do início do século 21. No entanto, o jogo virou recentemente com a reinserção de artistas e faixas em comerciais, samplers e citações diretas como influências por astros contemporâneos. Nomes como The Weeknd, Olivia Rodrigo e Björk, entre outros, declararam recentemente o movimento japonês como fonte de inspiração em seus trabalhos, outro fator resultante da onda nostálgica.
O movimento de redescoberta do city pop apresenta números relevantes. “Mayonaka no Door”, por exemplo, já acumula cem milhões de visualizações no YouTube nos últimos três anos. Em 2022, dominou a lista Global Viral do Spotify durante três semanas, à frente de novos lançamentos. Outro clássico do estilo, “Plastic Love”, de Mariya Takeuchi, vendeu somente dez mil cópias em compacto quando do seu lançamento original, em 1984. Após ressurgir no TikTok, acabou relançada em cópias físicas que rapidamente foram esgotadas no Japão e em outros países europeus. De um juramentado “flop” nos anos 1980, a canção tornou-se um hit quatro décadas depois e hoje é trilha viralizada inconteste nas redes sociais.
O aspecto visual do city pop também se tornou it-fashion na Geração Z. Jaquetas, ombreiras, coletes, estampas geométricas e xadrez, além de ternos casuais, passaram a compor o guarda-roupa do cenário jovem alternativo. Determinadas marcas, como a rede japonesa de estamparia e camisas Fuseinati, passaram a produzir linhas inspiradas no período, com divulgação nas redes por meio de “mini videoclipes” similares à estética vintage do movimento. Resultado: recordes em vendas.
Há eventos hoje dedicados exclusivamente ao gênero em todo mundo. Inclusive no Brasil. É o caso da Akiba Station e a Festa City Pop Night. Enquanto a primeira se localiza no bairro da Liberdade, em São Paulo, essa segunda promove “giros itinerantes”, percorrendo diversos estados com festas e encontros em inúmeros locais, incluindo bares temáticos e danceterias. Ela, coordenada por DJs como Lika Tokuti e Pauluk, é uma prova do caráter global e de adoção até mesmo brazuca do movimento.
Não se sabe se a amálgama sonora e de estilo estético de “revival” ao city pop vai perdurar nos próximos anos. Contudo, o fenômeno provou como o tempo pôde transformar um gênero então doméstico japonês dos anos 1980 em um produto global de alcance multimídia e de poder atemporal, possibilitando o feito de obras serem parte de movimentos de tendência mundial contemporânea fashion, comportamental e, claro, musical de relevância.
Artistas principais para conhecer o city pop
Aqui estão alguns dos principais nomes do movimento city pop que você precisa conhecer:
Mariya Takeuchi

Frequentemente chamada de “Rainha do City Pop”, iniciou sua carreira no final dos anos 1970. É casada com Tatsuro Yamashita, que produziu muitos de seus discos e é outro artista oriundo do movimento. Sua grande música dentro do gênero é “Plastic Love”. Entre seus álbuns de destaque estão “Portrait” (1981), “Variety” (1984) e “Request” (1987).
Miki Matsubara

Começou como cantora de jazz e pop tradicional, estreando aos 19 anos. Concomitantemente à sua carreira artística, trabalhou com músicos da famosa gravadora Motown, o que conferiu aspectos da black music à sua obra city pop. Sua música mais famosa é “Mayonaka no Door (Stay with Me)”. Seus principais álbuns são “Pocket Park” (1980), “Cupid” (1981) e o elogiado disco de covers “Blue Eyes” (1984). Faleceu em 2004.
Tatsuro Yamashita

Conhecido como o “Rei do City Pop” e casado com Mariya Takeuchi, começou no grupo Sugar Babe antes de seguir carreira solo, na qual mesclou influências ocidentais à música japonesa, calcando-se em um som R&B e soul com influências de disco music. Sua canção mais célebre é “Ride on Time” (1980). Entre seus principais álbuns estão o homônimo da faixa (1980), “On the Street Corner” (1981) e “Big Wave” (1984).
Taeko Onuki

Também ex-integrante da banda Sugar Babe, iniciou sua carreira solo em 1975. Com um estilo vocal etéreo e influências vanguardistas, a musicista possui uma vertente mais melancólica dentro do city pop, prezando o clima em vez de melodias pulsantes. Seu grande hit é “4:00 AM”. Destacam-se os álbuns “Sunshower” (1977) e a trilogia “Romantique” (1980), “Aventure” (1981) e “Cliche” (1982), com referências francesas e alemãs.
Carlos Toshiki

Nipo-brasileiro de Londrina que se mudou para o Japão na adolescência e tornou-se vocalista da banda Omega Tribe em 1986, onde permaneceu até 1991. Toshiki uniu o tom solar da brasilidade à elegância do city pop no hit “Kimi wa 1000%”, um dos maiores hinos de verão do Japão. Entre álbuns importantes seus estão “Navigator” (1987) e “Down Town Mystery” (1988) com o grupo, e o solo “Alquimist” (1993).
Seiko Matsuda

Uma das maiores artistas do pop japonês, dominou a década de 1980 com uma imagem carismática e voz cristalina. Com dezenas de singles no topo das paradas, seu hit “Sweet Memories” consolidou a transição para um som mais sofisticado. Entre seus álbuns de destaque estão “Pineapple” (1982), “Windy Shadow” (1984) e o aclamado “Citron” (1988), esse produzido pelo lendário músico e arranjador americano David Foster.
Haruomi Hosono

Verdadeiro arquiteto da música moderna japonesa, foi fundador de dois grupos seminais: o conjunto de folk/rock Happy End e o trio vanguardista Yellow Magic Orchestra. Hosono fundiu o city pop com experimentações eletrônicas e ritmos latinos, tendo em “Sports Men” um de seus hinos mais conhecidos. Destacam-se na sua carreira os álbuns “Tropical Dandy” (1975), o influente “Paraiso” (1978) e o surrealista “Philharmony” (1982).
Anri

Conhecida como a “Rainha do Verão”, Anri é uma das vozes mais emblemáticas da vertente resort pop, trazendo uma estética solar à atmosfera urbana. Seu sucesso “Remember Summer Days” tornou-se símbolo do período. Entre seus álbuns essenciais estão “Timely!!” (1983), “Bi·Ki·Ni” (1983) e “Coool” (1984).

