*Por Kelvyn Araújo
Jovem musicista, que esteve no palco de grandes festivais internacionais como o Rock in Rio Lisboa, coordena novo trabalho apresentando releituras de Eric Clapton
Por todo o tempo, jovens talentos aparecem na música brasileira. Contudo, poucos têm a oportunidade de tantas conquistas e feitos em um tempo de carreira relativamente curto. Este é o caso de Gabi Anias. A guitarrista de 19 anos é mais que uma simples promessa: é a prova viva de um currículo que muitos veteranos talvez levassem décadas para construir.
Paulista e ex-aluna da instituição internacional de ensino School of Rock, onde estudou por oito anos, Gabi esbanja uma série de particularidades importantes. Foi a única brasileira selecionada três vezes para o prestigioso programa interno de reconhecimento All Stars, destacando-se entre mais de 60 mil alunos entre todos o mundo. Além disso, foi convidada a participar da edição do festival Rock in Rio Lisboa em 2022, com somente 16 anos, e realizou uma outra passagem pelo evento americano Summerfest no ano seguinte.
Contando com uma rotina intensa de shows e gravações, a jovem concilia a profissão com o academicismo, uma vez que cursa formalmente o Bacharelado em Música na Faculdade Souza Lima. Nesse ínterim, colaborou com nomes como Paulo Miklos e Charles Gavin (ex-Titãs) e Bumblefoot (ex-Guns N’ Roses), além de um “estouro” nas redes sociais: sua série de vídeos “Iconic Solos” — onde reproduz e ensina solos de guitarra famosos — já ultrapassou a marca de um milhão de visualizações.
Recentemente, a guitarrista estreou um novo projeto: o Eric Clapton Tribute. Como o nome diz, a série de apresentações inclui releituras do repertório do lendário músico de blues e rock britânico, revisitando clássicos com uma performance intensa e a técnica apurada que marca seu estilo. O show contou com datas importantes em São Paulo, como as apresentações realizadas no Bourbon Street e no Blue Note no ano passado, e em breve deve ganhar novos palcos ao redor do país.
Em entrevista ao Matraca Cultural, Gabi falou sobre novo projeto, a carreira, a vida dupla entre os estudos musicais e a estrada, além de planos para o futuro.
Matraca Cultural: Você estudou por oito anos na School of Rock e foi a única brasileira com três participações no programa interno All Stars. Como essa experiência global, competindo com outros 60 mil alunos, moldou sua visão sobre o que é ser uma guitarrista profissional?
Gabi Anias: Foi uma grande conquista ter sido uma das alunas selecionadas para o All Stars, e acredito que isso tenha me moldado como profissional. Foi uma prova para mim mesma de que eu era capaz e estava no caminho certo. Depois dessa experiência, comecei a entender de fato como a carreira musical funciona, pois o programa, até então, tinha sido a experiência mais próxima do “profissional” que eu havia chegado tão nova.

MC: Você menciona que busca ser uma fonte de inspiração para outros jovens guitarristas. Como é conciliar a vida de estudante com a responsabilidade de já ser uma figura conhecida dos shows e vídeos?
GA: É muito gratificante. Eu diria que são duas “vidas” diferentes. De manhã estou estudando na faculdade e, à tarde e à noite, estou ensaiando, fazendo shows e gravando conteúdo para a internet. Apesar de ainda estar aprendendo todos os dias na graduação, sinto-me muito honrada por já poder impactar e influenciar outros músicos e mulheres.
MC: Você já dividiu o palco com ícones como Paulo Miklos e Charles Gavin. Existe algum conselho ou “macete” de palco que esses veteranos do rock nacional te passaram e que você carrega até hoje?
GA: Com certeza, é sempre muito bom aprender com os mais experientes. Em especial, o Charles Gavin foi um cara com quem tive bastante contato e que me ensinou muito. Ele sempre me dizia para buscar saber das histórias e contextos das músicas que tocamos. Então, quando eu fosse tirar um repertório novo, o ideal seria não só aprender a tocá-lo, mas entender do que as letras falam, como foram escritas etc. O Gavin é uma pessoa muito estudiosa e pesquisadora; aprendo muito com ele.
MC: Tocar com o Bumblefoot (ex-Guns N’ Roses) deve ter sido um momento marcante. Como foi a troca de ideias com ele e como surgiu a oportunidade de gravarem juntos para a sua série?
GA: Ele estava no Brasil para uma participação na turnê do Kiko Loureiro em 2024. Aproveitamos a oportunidade e conseguimos alinhar um encontro no mesmo dia do voo dele de volta para os Estados Unidos. Ficamos gravando a tarde inteira. Para mim, foi surreal tocar ao lado de um ex-Guns N’ Roses, minha banda do coração. Ele me ensinou demais; mostrou técnicas e particularidades da guitarra dele que eu nem sabia que existiam!
MC: Você se apresentou no Rock in Rio Lisboa com apenas 16 anos. Qual foi o maior aprendizado técnico ou emocional de estrear em um dos maiores palcos do mundo tão jovem?
GA: Acho que o principal aprendizado em palcos maiores é o emocional. A parte técnica, claro, precisa ser trabalhada, mas é um processo feito antes do show. Ali na hora, o que mais importa é o equilíbrio emocional para enfrentar o grande público em um festival renomado, com a galera vibrando.
MC: O seu projeto de tributo ao Eric Clapton foca em um dos guitarristas mais influentes da história. De onde veio essa iniciativa e como você equilibra a reprodução dos timbres icônicos com a sua própria identidade?
GA: A ideia surgiu em 2024, pois o Clapton sempre foi uma grande referência para mim. O repertório é cheio de solos clássicos e ele tem um jeito único de tocar. Estudei bastante todas as músicas para buscar entender a essência e, principalmente, a intenção dele ao fazê-los. Depois disso, comecei a colocar minhas próprias ideias e improvisos, mas sempre com o estilo dele em mente.
MC: A série “Iconic Solos” acumulou muita repercussão. Qual solo foi o mais marcante para você e o mais difícil de “desconstruir” para os vídeos?
GA: Eu sempre curti assistir a esse estilo de vídeo, como “os 5 solos mais difíceis da história”. Decidi criar minha própria série com os 30 mais icônicos na minha visão. Houve vários desafios, mas acredito que um dos mais difíceis de pegar foi o de “Symphony of Destruction” (Megadeth) ou o de “Bark at the Moon” (Ozzy Osbourne). Fiquei bem feliz com o engajamento; quando batemos a marca de um milhão de views, foi surpreendente. Recebi muitos feedbacks positivos sobre a execução e a escolha das músicas.
MC: Você se define como uma guitarrista técnica e versátil. Qual a linha tênue entre demonstrar virtuosismo e ser melódica no instrumento?
GA: Acredito que o balanço entre os dois seja o ideal. Sempre fui fã de guitarristas com técnica refinada, mas que buscam ser musicais, como John Mayer no blues, Ritchie Blackmore no rock e Marty Friedman no metal. Por isso, busco criar solos que soem como uma “história”, mesclando frases rápidas com notas longas e muito sentimento.
MC: Você já dividiu o palco com tantos artistas e em festivais internacionais. Qual o próximo “palco dos sonhos” que você ainda deseja conquistar?
GA: Meu sonho máximo continua sendo o Rock in Rio, no Rio de Janeiro, em um dos palcos principais. Ter tocado na edição de Lisboa foi sensacional, mas ainda sonho bastante em tocar no festival aqui no Brasil.
MC: Se você pudesse dar um único conselho para um jovem que quer começar a tocar guitarra hoje, qual seria?
GA: O conselho que eu daria é: aprenda a amar a guitarra. Isso porque é um instrumento que exige bastante estudo e dedicação envolvido, assim como todos os outros. Então para que isso funcione, precisa haver uma paixão pela música e pelo instrumento. E claro, nunca se esqueçam de se divertir ao tocar, afinal, isso é o mais importante.

