MÚSICA

Rodrigo Vellozo combina afetividade e modernidade em disco de tributo ao pai Benito de Paula

Músico revela detalhes do impacto pessoal e produção do álbum em celebração à vida e obra do cantor

Há poucas figuras na música brasileira que conseguiram transitar com tanta naturalidade entre o apelo popular das rádios e a sofisticação harmônica quanto Benito Di Paula, que faleceu no último dia 19, aos 84 anos, após lutar contra um câncer por aproximadamente um ano. Sua partida deixa uma lacuna na música brasileira e encerra a trajetória de um artista que marcou a história do samba e da canção popular no país. O Matraca Cultural se solidariza com familiares e fãs nesse momento de luta e dor.

Nascido Uday Vellozo, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Benito era um dos doze filhos de uma família de ascendência cigana. Autodidata, crescido no circuito da música, aprendeu a tocar violão e conheceu sua paixão mais duradoura: o samba. Foi professor para jovens em morros cariocas, logo trocou as seis cordas pelo piano e, com seu fiel escudeiro de composição e performance, virou cantor em boates do Rio e de São Paulo. Em meados dos anos 1960, gravou seus primeiros compactos, que levaram à produção do seu primeiro álbum solo, que ganhou seu nome.

O trabalho apresentou ao mundo a série de características que fizeram Benito Di Paula um dos artistas mais importantes da sua geração. Transformou o samba em um reduto orquestrado, intenso e que se misturava ao popular e à produção esmerilhada. Saíam as rodas exclusivas de violão, percussões e cuíca para pianos acústicos e elétricos, cordas, corais e temas que iam de visões sociais, histórias crônicas e de fé, até às “fossas” amorosas, claro. 

Tais mesclas sonoras e a modernização da forma de se produzir samba tornaram Benito uma das figuras precursoras do pagode, junto a nomes como Agepê e outros, pela popularização de produções mais sofisticadas e entrega de outras influências para o samba. No seu caso, passa pelo jazz, música romântica latino-americana até a world music e o afrobeat. O músico construiu um patrimônio cancioneiro que atravessou décadas e serviu de referência e reverência a inúmeros artistas. Nesse período, lançou uma série de álbuns pelo selo Copacabana, produziu hits como Retalhos de Cetim, Quem Vem Lá, Se Não For Amor, Além De Tudo e Charlie Brown.

Neste ano, a força e o legado do cantor ganham mais uma efeméride, isso porque um de seus trabalhos mais vendidos, o disco Benito Di Paula, de 1976, celebra 50 anos. Ele ganha nova vida nas mãos de quem melhor poderia conhecê-lo sob ótica, literalmente, familiar: o seu filho, também cantor, compositor e pianista Rodrigo Vellozo.

Disponível desde o final de julho pela Companhia de Discos do Brasil (CDB), o disco Benito Di Paula – Rodrigo Vellozo convida Rodrigo Campos, Thiago França e Fumaça foge do óbvio e serve como um tributo à altura. Longe de uma reverência burocrática ou estritamente nostálgica, o projeto aposta em releituras contemporâneas, costuradas com alguns dos nomes mais inventivos da cena atual independente e do samba brasileiro. Vellozo destaca a importância de ter revisitado o repertório do pai e a cumplicidade com as composições, que transformou um dos últimos pedidos de Benito em um dos álbuns mais emocionantes do ano.

Do acaso à produção: as origens do tributo

Embora já tivesse registrado a obra do pai em projetos anteriores, como em comemoração aos 40 anos de carreira de Benito, na década passada, a gênese do novo trabalho veio diretamente deste, segundo o músico. “Meu pai completaria 85 anos agora em novembro. O tempo do corpo vai mudando, ele estava fazendo menos shows e estávamos menos tempo juntos. Ele me pediu que regravasse esse material, e eu comentei que já tinha gravado muita coisa do repertório dele e ele comentou: ‘mas você não gravou essa, não gravou aquela’. Ele foi elencando o que queria e eu falei: ‘É, então vamos aí!’

A relutância inicial de Vellozo diante da dualidade de carregar o sobrenome de um gigante da música popular e de novamente revisitar o repertório do pai foi cedendo espaço para a vontade de honrar o pedido. A faísca, segundo o músico, para o formato do projeto acendeu durante uma apresentação na Casa de Francisca, em São Paulo, onde ele dividiu o palco com o multi-instrumentista Thiago França, o cavaquista e compositor Rodrigo Campos e o percussionista Fumaça, que acabaram colaborando no álbum.

“Um dia eu fui na Casa de Francisca, um lugar que eu amo, e o Rodrigo, o Tiago e o Fumaça estavam fazendo uma roda de samba lá. Era um som muito legal, muito único dentro de uma linguagem própria, o que me encantou. Cantei uns sambas do meu pai, senti aquela sonoridade na hora e tudo calhou. Por isso o trabalho foi menos pensado do que a outra vez que eu toquei coisas dele. Porque o samba do meu pai é diferente, pois dialoga com uma linguagem jazzística, e de outras influências. O próprio piano, se você for destrinchar, é muita coisa. É música erudita misturada com jazz, com samba, com João Gilberto”, frisa Vellozo.

Segundo ele, o álbum traz elementos não tão percebidos e muito diversificados da obra de Benito, o que motivou a escolha dos próprios parceiros de trabalho. “O senso comum sobre a obra do meu pai fala que ele trouxe o piano para o samba, mas o piano dele mesmo é pouco decupado. Muito simples e muito complexo ao mesmo tempo. Eu acho que os músicos que estão comigo são consequência do leque de possibilidades que a música dele traz. O Thiago é um cara que vem da música experimental, mas está sempre pensando o samba. Já o Rodrigo tem aquela coisa do cavaco, que dialoga com a tradição do samba raiz, conhece tudo do Paulinho da Viola. E o Fumaça é da tradição, ligado ao pagode. E o pagode bebeu e bebe muito da obra do meu pai”, ressalta.

O espelho do passado refletindo o hoje

O álbum é estruturado em dois atos bem definidos. O primeiro reproduz rigorosamente a sequência de abertura do disco de 1976, com Maria Baiana Maria, Tudo Está no Seu Lugar, Do Jeito Que a Vida Quer, Tudo Está Mudado e Meu Maior Afeto.

Se o lado A honra a arquitetura original do vinil, o lado B mergulha na dimensão afetiva e espiritual de Benito. Enquanto a faixa Homem da Montanha eternizou a faceta mítica do artista que ascendeu das origens humildes, Vellozo preferiu inverter a lente para focar na figura paterna. “Eu fui pensando em como esse álbum soa hoje em dia. Busquei coisas do meu pai sob a maneira como eu o vejo, ao invés de reproduzir a visão que ele tinha sobre si próprio. Era justo que eu trouxesse o meu olhar sobre ele, o que impactou na escolha de músicas que sumarizam a figura do Benito nessa metade. Em relação à fé, por exemplo, que é muito forte, tem duas canções que eu tinha que colocar, que são Samba do Profeta e Oração de São Francisco”.

Essa última, que contou com a participação de Aurora, de 4 anos, filha de Vellozo, encerra o álbum e apresenta um dos ápices da conexão familiar retratada no projeto. Ele relembra o impacto pessoal da escolha da faixa no tracklist e a motivação para a escolha do duo com a sua pequena, dando continuidade a esse elo de afeto e reverência. “Eu gravei Oração de São Francisco com o meu pai quando eu tinha exatamente a mesma idade da minha pequena, foi a primeira música que eu cantei em um estúdio. Essa canção sempre me ligou ao meu pai pela fé, uma fé pautada no acolhimento, sem qualquer tipo de preconceito. Minha filha sempre quis essa participação, foi uma conexão natural, por isso meu pai me fez gravar. É emocionante tê-la no repertório”, acrescenta.

A readequação do clássico ao moderno 

Ao lado de Rodrigo Campos, Thiago França e Fumaça, o arranjo das canções ganhou texturas inesperadas, sem perder o cerne melódico e harmônico original. Um dos momentos mais destacados nesse sentido está em Tudo Está Mudado, que ganhou ares teatrais e esotéricos. “É uma música super triste, que poderia ter sido cantada pela Maysa. Nós sempre escutamos muita música cigana, por conta da nossa ascendência e, nessa gravação essa referência aparece, não sei se pela guitarra, pela flauta ou pela forma como fizemos, porque está nos acordes”.

Mesmo com as guitarras, os timbres de piano elétrico Rhodes e as quebras rítmicas voltadas ao afoxé em faixas como Maria Baiana Maria, a essência permaneceu intacta, ainda que o próprio Benito tenha estranhado à primeira audição. “Ele gostou muito de tudo, principalmente das músicas que ele tinha me pedido para gravar. Algumas ele achou muito diferentes e ficou surpreso. Mas quando nós fizemos o show, que ele entrou no final e viu a relação das versões rearranjadas com o público, ele entendeu. O repertório do meu pai tem uma ligação profunda que marca a vida das pessoas e formou várias gerações, o que torna tudo muito especial”, acrescenta.

De pai para filho: a tradição em movimento 

Para Vellozo, a melhor maneira de homenagear Benito foi a adoção da mesma liberdade criativa que guiou sua carreira. “O que meu pai fez é genial! A melhor forma de homenagear essa obra não é apenas reproduzir o que já foi feito, trata-se exatamente de ser tão livre quanto ela foi. Não foi uma coisa de querer mudar a música deliberadamente, e sim o resultado do afeto e amor por essa obra”.

O músico hoje enxerga o álbum com tamanha importância que considera o resultado final como parte integrante de si mesmo. “Hoje esse álbum ganha um caráter de celebração, mas também da nossa entrega, que ficou marcada ali. Entramos tanto material que ficou um pouco da gente no disco final. Essa foi a maior homenagem que podíamos ter feito à obra do Benito”, completa.

Kelvyn Araujo

Kelvyn Araujo

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