CISARTE oferece oficinas culturais para trabalhar autoestima, criatividade e pertencimento, visando estimular o lado lúdico e devolver a dignidade
Recentemente, o vídeo de um jovem tocando piano com extrema habilidade viralizou nas redes sociais e emocionou os internautas. A cena chamou atenção não apenas pelo talento do músico, mas também pela história por trás dela: o artista vive em situação de rua e busca reconstruir sua vida. Ele é um dos atendidos pelo CISARTE (Centro de Integração Sociocultural pela Arte, Trabalho, Educação e Saúde), projeto que utiliza a arte, entre outras ferramentas, como forma de ampliar as possibilidades de pessoas em vulnerabilidade social mudarem de vida e de serem reinseridas no mercado de trabalho.
O CISARTE é um ponto de cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura, que promove cidadania e diversidade por meio da arte, fortalecendo redes e ampliando o acesso a direitos. O espaço oferece oficinas gratuitas de música, piano, violão, canto, teatro, cinema, costura e serigrafia. Além dos cursos ligados às artes, o local oferece aulas de informática, culinária, línguas e aconselhamento jurídico. Mais do que aprender uma técnica artística, as oficinas são pensadas para trabalhar aspectos como autoestima, convivência, criatividade e pertencimento, visando estimular o lado lúdico, permitir que as pessoas se expressem e se reconheçam como cidadãos pensantes. E nesse processo, muitas potencialidades são reveladas.
“Queremos que as pessoas se sintam acolhidas, pois elas já chegam com um histórico de estigmatização, rejeição e exclusão. Parte do nosso trabalho é pensado para resgatar o conhecimento que cada um já possui, porque, quando o indivíduo se sente valorizado e tem o prazer de mostrar seu talento, ele percebe que é muito mais do que a aparência de maltrapilho, e isso faz toda a diferença”, afirma Darcy Costa, diretor e presidente do CISARTE.
No curso de teatro, por exemplo, os exercícios são construídos para estimular a relação entre os participantes e criar um ambiente seguro de troca. “As nossas dinâmicas fazem com que eles percebam que cada um tem seu momento, mas também precisam acompanhar e respeitar o momento do outro. Trabalhamos criatividade, acolhimento e, principalmente, a possibilidade de eles se sentirem capazes. Quando ele cria, recebe um elogio e percebe que é criativo, passa a se enxergar de outra forma”, explica Dell Moraes, professor da oficina de teatro.
Essa possibilidade de olhar para si por outra perspectiva também está presente na oficina de cinema, iniciativa que faz parte de um projeto da Fundação Elijass Gliksmanis, que também apoia o centro em outras áreas relacionadas às artes e à estrutura do espaço. “Nos nossos encontros, percebemos que todo mundo tem um sonho. Todo mundo quer ser visto e tratado de forma digna”, afirma Marcelo Meniquelli, professor da oficina de cinema.
A história de Washington, multi-instrumentista com formação na Escola de Música Villa-Lobos e na EMESP Tom Jobim (Escola de Música do Estado de São Paulo), é um dos exemplos que melhor sintetiza o objetivo do projeto. Ele viveu em situação de rua por cinco anos, próximo à Rodoviária do Tietê e, durante esse período, frequentou diariamente o terminal para tocar o piano que fica no local. Ele foi atendido pelo CISARTE e, atualmente, é professor da oficina de música.
“A arte cura! Precisei de muita força de vontade, mas a música me curou! Estou completando um ano no projeto e hoje eu consigo pagar minhas contas, o aluguel e ter minha independência. É muito bom ver as pessoas interessadas em aprender arte, pois eu sei como isso pode ajudá-los no processo de reinserção na sociedade”, ressalta.
Um espaço para acolher
Localizado na região central da cidade de São Paulo, em uma área de cerca de 1.560 metros quadrados, o espaço, que chega a atender cerca de 200 pessoas por dia, é uma conquista do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR). O movimento teve início em 2004, depois do episódio que ficou conhecido como “massacre da Sé”, uma série de ataques brutais contra pessoas em situação de rua que resultou em sete mortes e vários feridos graves.
Durante algum tempo, o local funcionou como um albergue, que foi fechado pelo Ministério Público devido às condições insalubres. O espaço foi revitalizado, visando trazer significado, dignidade, respeito e cidadania. Também ganhou obras de arte, como grafite e lambe-lambe, para se comunicar com a cultura da rua e dar uma sensação de acolhimento e pertencimento.
Muitas pessoas chegam desorientadas devido ao consumo abusivo de substâncias químicas. Por isso, todos os detalhes são pensados para trabalhar os sentidos, ativar memórias afetivas e trazer as pessoas à centralidade. O volume do som interno é mantido em um nível agradável, as toalhas são bordadas para lembrar casa de vó e a comida servida é toda caseira, buscando despertar a memória olfativa. Conforme a ansiedade diminui, a equipe técnica se aproxima para criar vínculo e oferecer todo o suporte necessário.
Esse trabalho é realizado de forma articulada com a rede de assistência e saúde para somar estruturas, e não substituí-las. Parte das pessoas atendidas já utiliza serviços como os CAPS e o Consultório na Rua e, quando necessário, a equipe aciona os serviços públicos, acompanha os encaminhamentos e oferece o suporte para garantir que esse acesso aconteça de forma efetiva. Parte dos profissionais que atuam no CISARTE já passou pela mesma condição e hoje participa diretamente do trabalho desenvolvido no espaço.
“É um sentimento de dever cumprido quando percebemos que uma pessoa conseguiu sair de uma situação de vulnerabilidade e voltar ao mercado de trabalho. Aqui mostramos que essas pessoas não são vagabundas, alcoólatras ou bandidas, como a sociedade afirma. Quando alguém consegue reconstruir sua vida, mostra que existe uma história, um conhecimento e uma capacidade que estavam sendo ignorados”, afirma Darcy.
Questionando as estruturas de poder
Após viver três anos em situação de rua, entre 2013 e 2016, o fundador do CISARTE, Darcy Costa, ampliou sua visão sobre as estruturas de poder que produzem e perpetuam a exclusão social. Ele passou a atuar no Movimento Nacional da População em Situação de Rua e transformou a própria experiência em uma luta pela valorização e pelos direitos dessa população.
Para ele, a desigualdade não pode ser compreendida somente a partir das escolhas individuais de quem vive nas ruas. É fundamental olhar para as estruturas históricas que definiram quem teria acesso a oportunidades. “A elite se formou colocando outras pessoas à margem da sociedade. Por isso, quando a gente fala de exclusão, não estamos falando de um fenômeno natural, mas de uma estrutura que foi construída e que mantém determinadas pessoas fora dos espaços de poder”, afirma.
Ao mesmo tempo em que questiona essas estruturas, Darcy defende que a periferia seja reconhecida pela riqueza cultural e pelas potencialidades que produz. “Nós, unidos e procurando valorizar nossa cultura e nossos conhecimentos, podemos construir uma comunidade mais justa. Hoje, o Brasil é reconhecido internacionalmente não pelas nossas elites, mas pelas nossas periferias, porque existe muita potência ali. Mas incomoda quando a periferia chega a lugares que historicamente não eram destinados a ela. O que falta não é capacidade, mas oportunidade de acesso”, completa.
Como ajudar?
Para manter a estrutura e ampliar as atividades, o CISARTE ainda não conta com uma fonte fixa de receita. O projeto depende de doações, trabalho voluntário e parcerias com instituições que contribuem com recursos, alimentos, serviços e conhecimento.
Entre os parceiros estão universidades que desenvolvem projetos e estágios no espaço, como Mackenzie, USP e FGV, além de iniciativas ligadas à segurança alimentar, como cozinhas solidárias e o Banco de Alimentos da Ceagesp. A parceria com universidades também já resultou na criação de mobiliário para o espaço, a partir de projetos desenvolvidos por estudantes.
Artistas, profissionais e instituições interessados em oferecer oficinas ou desenvolver atividades podem apresentar propostas à equipe do CISARTE. Para quem deseja contribuir financeiramente, realizar doações ou atuar como voluntário, as informações estão disponíveis no site.

