*Por Bárbara Moraes
Monólogo de Adelino Costa transforma memórias, literatura e emoção em uma experiência visceral sobre ser e resistir na periferia
Quem entra na sala do Teatro Arthur Azevedo é imediatamente envolvido pela energia de Adelino Costa. De blusa branca da Escola de Samba Integração e um short preto, o ator e produtor recebe o público com o mesmo entusiasmo que marca cada instante de seu monólogo “Não Tem Meu Nome”. O som alto que pode ser ouvido de fora da sala, anuncia o clima intenso da experiência que o espectador está prestes a viver, e, quando a peça começa, é impossível não ser cativado pelo carisma e entrega do artista. Em cartaz até 26 de outubro, agora em sua segunda temporada, o espetáculo traz aos palcos histórias de pertencimento, memória e resistência.
Inspirado em O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, e Pertencimento: Uma Cultura do Lugar, de bell hooks, o texto mergulha em temas como intolerância, identidade periférica e a urgência de se reconhecer em um mundo que insiste em negar certas existências. Mas “Não Tem Meu Nome” vai além das referências literárias: é também uma viagem pelas lembranças do ator em sua infância, na região metropolitana de Porto Alegre. Essas memórias costuram a narrativa, ganham corpo em sotaques e personagens inspirados em amigos de infância e, claro, no próprio Adelino.
Durante os noventa minutos de espetáculo, com poucos recursos cênicos e muita destreza, Costa transporta o público para a sua vida e de seus amigos na Cohab do Guaíba, sem nos tirar da sala do teatro. Pitty, Binho e o próprio Adelino ganham vida em histórias que traduzem a luta de quem precisa se moldar para caber em uma sociedade ainda marcada pela branquitude e pelo elitismo. A força do texto, desenvolvido a partir de sua pesquisa de conclusão da Pós-Graduação em Direção Teatral na Faculdade Paulista de Artes (FPA), sob orientação do Prof. Dr. Marcelo Soler, está justamente nessa capacidade de fazer o particular soar universal.
Ao final, ao distribuir as fitinhas com o nome do espetáculo, ele também se emociona em um depoimento pessoal, após revelar a sua principal necessidade de criação da peça. “Não Tem Meu Nome” pode não ter o nome de Adelino, mas traz certamente à tona sentimentos e vivências tão comuns, mas muitas vezes invisíveis, de inúmeras pessoas em todo o país.
Entenda mais sobre o processo criativo da obra na entrevista com o ator:

Matraca Cultural – A peça nasce a partir de sua vivência pessoal como alguém da periferia. De que forma você escolheu quais memórias ou relatos incorporar ao monólogo?
Adelino Costa: A construção da dramaturgia é motivada pela análise de como pessoas de comunidades subalternizadas se desfazem de aspectos de sua identidade para sobreviver. Essa necessidade de moldagem para o encaixe social culmina na progressiva perda do senso de pertencimento e consciência de classe. A fim de propor essa reflexão, investiguei elementos, fatos e personagens que marcaram a origem da minha própria identidade.
MC- O espetáculo propõe uma reflexão sobre “intolerância, identidade periférica e noção de pertencimento”. Qual dessas temáticas foi mais desafiadora para você abordar e por quê?
AC: Eu não as vejo separadas, mas sim entrelaçadas pelo meu lugar de fala como artista nesta obra. Sou um indivíduo periférico, pardo, homem e hétero. Ao reconhecer minha posição, consigo discernir exatamente os momentos de privilégio e de discriminação. Por isso, falar da minha condição implica na obrigação de falar sobre aqueles com menos privilégios que eu, mas sempre a partir da minha perspectiva. Lembro, por exemplo, de uma citação de Frantz Fanon em ‘Pele Negra, Máscaras Brancas’, que aponta a dificuldade de resolver a injustiça social global sem antes resolver a questão do racismo.
MC- Em cena, ator e personagem se fundem. Que estratégias cênicas como luz, som, objeto, presença, você usa para reforçar essa fusão, e como isso impacta o público?
AC: Um dos maiores desafios deste trabalho reside justamente na escolha da linguagem: empregar elementos cênicos como voz, corpo e objetos para narrar a história. O espetáculo assume um tom de depoimento em primeira pessoa, onde intercalo momentos narrativos com dramáticos, visando construir a reflexão junto ao público, a partir de suas próprias referências e visões de mundo. Acredito que esta abordagem foi um acerto, pois permitiu universalizar uma questão que, a princípio, seria vista como exclusiva de uma comunidade, no caso, a periférica.
MC- Como você imagina que o público periférico reage à peça em comparação ao público que talvez não viva essas realidades com tanta proximidade? Que efeitos ou desdobramentos você espera que surjam após a plateia assistir?
AC: O alcance do espetáculo ultrapassa o público periférico, dialogando com as experiências de todas as comunidades subalternizadas (as chamadas “minorias”). Recebo retornos emocionados, presencialmente e por mensagem, de pessoas negras, mulheres e LGBTQIA+. Elas se identificam não apenas com as dores, mas, sobretudo, com a força de seguir adiante e defender a própria identidade diante de um mundo que impõe uma única realidade como verdade absoluta. Como afirma bell hooks, “um imperialismo cultural simbólico que finge ser universal para mascarar o som alto e violento de uma visão particular de mundo”. Tais conexões são muito significativas, a exemplo do áudio de 9 (NOVE) minutos que recebi de uma amiga não binária após assistir à obra — um fato que me toca e me motiva profundamente a continuar com este trabalho.
MC- O teatro tem sido uma ferramenta importante para narrativas periféricas ganharem visibilidade. Como você enxerga o papel da arte na construção de novas representações sobre quem vem das margens?
AC: A arte é abundante na periferia. No espetáculo, conto a história da Escola de Samba Integração, que existiu na década de 90 na Cohab, em Guaíba, meu local de criação. A capacidade dessa comunidade em aprender a tocar um instrumento, cantar ou montar coreografias é de dar inveja a qualquer um. A arte expõe a essência do indivíduo e da comunidade, pois não se faz arte sozinho. A grande pergunta, que me proponho em cena inclusive, é: por que ter que sair da sua comunidade para ser você mesmo? Nesse ponto, o teatro, ou a arte de modo geral, nos permite resgatar parte de nossa identidade deixada para trás para sobrevivermos neste mundo de padrões. Quando nos vemos nos palcos, ocupando espaços públicos e contando nossa história e outras que foram apagadas — mas que são parte fundamental da sociedade atual — nos reconhecemos como potência e passamos a lutar contra o silenciamento de quem pensa diferente.
Ficha Técnica
Atuação/direção/dramaturgia: Adelino Costa
Iluminação: Thatiana Moraes
Orientação coreográfica: Fefê Marques
Confecção figurinos: Paula Gascon
Operador de luz: Rafael Araújo
Assessoria de imprensa: Pevi 56
Produção executiva: Natália Sanches e Adelino Costa
Serviço
Não Tem Meu Nome
Temporada: Até 26 de outubro, sexta e sábado, 20h; e domingo, 18h.
Local: Teatro Arthur Azevedo (Av. Paes de Barros, 955 – Alto da Mooca, São Paulo – SP, 03115-020)
Duração: 90 minutos
Classificação: 16 anos
Capacidade: 50 lugares (Sala Multiuso)
Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia). À venda pelo Sympla e na bilheteria, uma hora antes do espetáculo

