*Por Lyllian Bragança
De cara, a resposta para esse questionamento é que são as mulheres brancas, as atrizes, influencers e subcelebridades, que estão dominando o cenário das agremiações, imprimindo uma nova ordem no que chamamos de escolas de samba, esquecendo-se que essa criação vem de uma visão afrodiaspórica de fundamento negro, e sobretudo, de cuidado ancestral das mulheres negras. Mas como falamos dessas questões sem cairmos no engodo de mulheres brancas x mulheres negras? Fazendo a lição de casa!
Olga Von Simson em seu livro “Carnaval em Branco e Negro”, destaca que a corporeidade branca está no carnaval desde os tempos de blocos, cordões e, em seguida, nas escolas de samba. Ela afirma também que essa máxima não interferiu nos símbolos que foram criados para manter uma estrutura social para que as pessoas negras pudessem viver numa sociedade desenvolvida sob o pretexto de uma democracia racial e que, no entanto, o racismo condicionou essas populações ao anonimato, descaso e sub-representatividade na estrutura piramidal de poder.
É na escola de samba que a representatividade negra irá emergir fazendo a contranarrativa de um projeto de poder do Estado, da mídia hegemônica e da elite brasileira. Ocorre que quando mulheres brancas dominam esse local, simbolicamente, elas apagam, desumanizam e ajudam no reforço de estereótipo criado para manter a mulher negra como servente, como diria Lélia Gonzalez. Pois é no campo da semiótica que a imagem ideal é construída e os discursos são assimilados, o que Sturt Hall chama de sistema de representação.
Portanto, não é à toa que atrizes e influenciadoras milionárias tomam o espaço constituído como simbolismo institucional das escolas de samba e o tornam mercadoria. O samba no pé hoje é para a falaciosa branquitude do poder, um acessório mercadológico, e sim, começa com a direção das escolas que vendem esses espaços.
Ali, à frente das baterias elas demonstram o poder aquisitivo, status e poder de barganha para que possam adentrar ao mundo do samba fortalecendo a circularidade do controle social que garante que a fortuna gerada pelo carnaval siga nas mãos da branquitude que só aceita pessoas negras quando coadjuvantes, mesmo sendo delas a concepção do samba.
Não é afronta quando evidenciamos esse estruturalismo segmentado de poder, pelo contrário, queremos aqui salientar que o pacto da branquitude também existe entre mulheres brancas, e segue firme. Aniquilando meninas das comunidades, mulheres negras que fizeram história e foram silenciadas pelo processo de estratificação cultural que compra seus passos de samba e se utilizam dessas pessoas até o momento em que acreditam não precisar mais, sendo então escanteadas.
Precisamos avisar que elas sempre irão precisar buscar o fundamento com quem vem desse lugar, no entanto o fundamento tem cor e vem atrelado com a resistência de quem atravessou o Atlântico enfrentando as mais diversas violências. E, como diria Lélia Gonzalez, o feminismo branco não gosta do feminismo negro, pois é preciso se sobrepor aos nossos corpos para garantir que suas pautas sejam superiores, e é aqui que o feminismo segrega. É no carnaval que vemos cada vez mais que é preciso um feminismo negro para garantir nossa continuidade.
*Lyllian Bragança é sambista, capoeirista candomblecista jornalista, pesquisadora e pós-graduada em Gestão Cultural pelo Celacc-USP.

