*Por Bárbara Moraes
Keyna Eleison também foi curadora da 1ª Bienal das Amazônias em 2023 e é diretora de Conteúdo e Pesquisa do Centro Cultural Bienal das Amazônias
Primeira cocuradora at large da história da Bienal de São Paulo, Keyna Eleison assina, ao lado de uma equipe internacional, a curadoria da 36ª edição 36ª Bienal de São Paulo, uma das mais poéticas e expansivas dos últimos anos. Com título inspirado no poema “Da calma e do silêncio”, de Conceição Evaristo, a Bienal propõe uma imersão profunda nas relações entre humanidade, natureza e escuta. Sob o tema “Nem Todo Viandante Anda Estradas – Da Humanidade como Prática”, a mostra reúne 120 participantes e convida o público a refletir sobre o movimento e a transformação humana. Aberta desde 6 de setembro, a exposição ocupa o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, com visitação gratuita até 11 de janeiro de 2026.
Mas engana-se quem pensa que o evento só iniciou em setembro. A 36ª Bienal de São Paulo viajou o mundo para entender as diferentes práticas das humanidades. Uma série de programas públicos chamados ‘Invocações’ aconteceram em quatro diferentes cidades sendo elas: Marrakech, Marrocos; Les Abymes, Grande-Terre, Guadalupe; Zanzibar, Tanzânia; e Tóquio, Japão.
Cada edição espelhou o conceito da exposição de humanidade como prática a partir de um contexto local específico. “Desde novembro do ano passado, a gente já estava invocando energia para que esta edição se firmasse como uma Bienal coletiva com muitas possibilidades e com muito afeto”, explica Keyna em entrevista ao Matraca Cultural.
Keyna é curadora, pesquisadora e educadora em arte e cultura. Mestre em História da Arte e especialista em História da Arte e da Arquitetura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ela foi primeira diretora artística do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) entre 2020 e 2023 e diretora de Conteúdo e Pesquisa do Centro Cultural Bienal das Amazônias. Com uma longa trajetória, ela é a primeira cocuradora at large da Bienal e conduziu de perto o projeto. Curador at large é um termo usado para se referir a um curador que atua de forma não exclusiva ou não residente em uma instituição, ou projeto, com uma atuação mais livre, transversal ou pontual. A edição foi conduzida pelo curador geral Prof. Dr. Bonaventure Soh Bejeng Ndikung com a equipe de cocuradores composta por Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza, além da consultora de comunicação e estratégia Henriette Gallus.
“Em paralelo ao projeto ‘Invocações’, a gente estava desenvolvendo também a lista de artistas e os trabalhos que estariam na Bienal. Foram 78 semanas de encontros, cada um com no mínimo quatro horas de duração. A gente se alinhava profundamente e fazia questão de conhecer pessoalmente cada artista participante”, revela.
Keyna destaca o conceito do evento. Inspirado no poema da Conceição Evaristo, ela salienta que a ideia de poesia foi muito importante para essa Bienal. “Esse poema é escrito por uma mulher negra viva. Não é uma jovem, é uma senhora. Uma mulher que viveu muito e que merece ser celebrada”. A estrutura da Bienal reflete essa inspiração, organizada em capítulos, como se fosse um grande livro em movimento, onde arte e palavra caminham lado a lado.

Confira a entrevista completa com Keyna Eleison, primeira cocuradora at large da 36ª Bienal de São Paulo:
Matraca Cultural: Você trabalhou como curadora, como pesquisadora, professora em gestora cultural, e eu gostaria de saber como essas experiências se integram com o seu trabalho de hoje em dia.
Keyna Eleison: O Brasil é um país que tem algumas questões muito fortes sobre estruturas e instituições. Então, quando você não está muito ligado a uma instituição, ou quando você não se liga muito cedo a uma instituição, você precisa se organizar o tempo inteiro, o que me deu uma inteligência e uma oportunidade de traçar possibilidades. Eu fui me entendendo dentro do campo da filosofia, muito focada para a relação de ética e estética. Também gosto muito de falar da minha formação familiar. Tenho uma formação de desenvolvimento de autoestima muito grande. Então, não apenas fazendo uma limonada do limão que me deram, mas também entendendo que eu poderia criar oportunidades para algumas imposições que me colocaram dentro da minha carreira.
E é o que me levou ao convite para estar nesta edição da Bienal. É a primeira vez que a Bienal de São Paulo tem uma cocuradora at large. Estou muito feliz e vejo a minha carreira encontrando possibilidades de caminhos. Nenhum deles é o ideal, porque eu não penso nessa coisa do ideal. Ficar imaginando muito o ideal, para mim, não funciona. Eu acho muito agressivo e violento. O meu campo da filosofia está muito em cima de um pensamento eurocentrado e eu fui descobrindo que esse pensamento não é suficiente. Porque ele não embarcava a minha existência.
MC: Como funcionou a estrutura e organização dessa edição da Bienal?
KE: As estruturas dentro da Bienal de São Paulo têm normalmente a curadoria chefe. A pessoa que fica na chefia, que pensou o projeto e o conceito, além de outras pessoas dando suporte. Nesta específica, na 36ª, tinha curador geral Bonaventure Soh Bejeng Ndikung com a equipe de cocuradores composta por Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza, além da consultora de comunicação e estratégia Henriette Gallus. Nesse sentido, na centralidade do pensamento e conduzindo a gente no nosso trabalho, o Bonaventure. E a gente foi se dividindo, nem sempre harmonicamente, mas estrategicamente em vários setores.
Eu fiquei muito focada no programa público que aconteceu antes da Bienal, que se chama Invocações, que foram atuações fora da Bienal de São Paulo. A 36ª Bienal começou antes e fora de São Paulo, porque a gente atuou em quatro países diferentes, fazendo quatro invocações diferentes. Para isso, a gente necessitava de uma força curatorial de produção muito grande e, enquanto isso, a gente estava desenvolvendo também a lista de artistas, os trabalhos que iam estar na Bienal. Todos nós cinco estávamos muito coletivamente trabalhando e a gente se encontrou semanalmente durante 78 semanas, por no mínimo quatro horas. Eu gosto muito de destacar esse número.
MC: Como é o processo de escolhados artistas? Quais vozes vocês querem privilegiar ou trazer nesse momento?
KE: Por incrível que pareça, a 36ª não é a Bienal com mais artistas da Bienal de São Paulo. Vamos imaginar que a gente também se responsabilizar por um prédio da Bienal de São Paulo. Quando eu falo se responsabilizar, porque assim, o prédio não é apenas grande de extensão, a instituição também é. A gente dividiu o nosso conhecimento porque somos curadoras e curadores que vêm de lugares diferentes, que tem interesses e práticas diferentes e dessa forma fomos escolhendo os artistas. Não é à toa, essas 78 semanas de encontros, para poder chegar nesse número. E uma coisa que foi muito importante, que é uma prática que eu agradeço muito o Bonaventure ter colocado para a gente, que todos nós conhecemos todos os artistas da Bienal. Mesmo quando a gente não conhecia, uma outra pessoa vinha e falava, olha, tem esse artista aqui, vocês conhecem? Não. Então, a gente apresentava o artista, apresentava a prática do artista, apresentava a forma em que ele era.
MC: Uma questão que me chamou muita atenção é que a inspiração para o tema foi aquele verso da Conceição Evaristo. Como que vocês chegaram nessa inspiração e se tem outras obras, outros textos que podem servir também para a gente ler e se conectar com o tema dessa Bienal.
KE: A ideia de poesia foi muito importante para essa Bienal. O Bonaventure trouxe essa proposta de conceito. E é muito bonito que o título vem de dentro de um poema, que para você poder chegar nesse título, você tem que ler o poema todo. Não é o título do poema. O título do poema é da calma e do silêncio. E é uma das últimas frases. Então você tem que ler inteirinho para poder chegar lá, nessa frase. A poesia brasileira vinda de uma mulher viva, senhora. Não é uma jovem, é uma senhora, uma mulher que viveu muito, que conhece muito bem. Conceição Evaristo é uma mulher negra, não jovem, viva, incrível, que merece ser celebrada. É muito bonito a gente ter como base.
MC: O que significou para você estar aí como uma das co -curadoras da Bienal na sua carreira.
KE: Ser cocuradora at large da Bienal foi uma grande alegria. Primeiro, porque eu não apenas pude trocar com os cocuradores que já eu não havia trabalhado com nenhum deles antes. Isso foi muito especial para mim. Também pude conhecer as pessoas. A 36ª Bienal foi um grande presente para mim, para me entender enquanto curadora, entender meu posicionamento de mundo, conhecer artistas maravilhosas e conhecer pessoas incríveis na equipe. E, bom, para a minha carreira eu saio mais inteligente, mais feliz, mais cansada, claro (risos). Mas muito, muito feliz. Estou muito satisfeita com o resultado.
MC: Você está na Bienal das Amazônias, eu queria entender como é que tá sendo, qual vai ser o seu papel.
KE: Eu fui a curadora da primeira edição da Bienal das Amazônias que aconteceu em 2023. E atualmente ela está em Medellín na Colômbia e estou muito feliz. A primeira edição da Bienal era um projeto de Lei Rouanet, que a gente conseguiu desenvolver a primeira edição como uma instituição. E na estruturação da instituição, eu fui chamada para ser diretora de Pesquisa e Conteúdo.
Estou na parte artística da administração da Bienal das Amazônias, que fica lá em Belém e agora é o meu trabalho fixo. Lá, a gente acabou de abrir a segunda edição com a curadoria da Manuela Moscoso, que é uma curadora do Equador. A dinâmica de pesquisa e de exposição de lá é muito diferente da Bienal de São Paulo. Um ponto que eu gosto muito de falar é que a Bienal das Amazônias não existiria sem a Bienal de São Paulo. A referência de uma ideia de Bienal vem da Bienal de São Paulo. Então, a gente não concorre em absolutamente nada. Eu acho que a Bienal das Amazônias contribui para mostrar que o Brasil é um campo forte de troca de pensamento artístico e cultural e ele não se esgota nele mesmo.

