CINEMA & SÉRIES

O Agente Secreto: memória, perseguição e o Brasil que insiste em se repetir

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, é um filme que nos convida a refletir sobre como as cicatrizes do passado não apenas insistem em não se fechar, como continuam abrindo novas feridas no presente. Basta observarmos o contexto que vivemos hoje, tanto no Brasil quanto fora dele, para perceber como essa discussão segue extremamente atual.

A história se passa em 1977, em plena ditadura militar, um período marcado por perseguições, assassinatos brutais e uma profunda distorção de valores. Naquele momento, o presidente era Ernesto Geisel, o penúltimo do regime, e esse dado não é um detalhe irrelevante: Kleber Mendonça faz questão de reforçar continuamente esse enquadramento histórico.

A câmera, em diversos momentos, insiste em enquadrar o rosto do presidente em quadros pendurados pelos espaços por onde os personagens circulam. É como se aquele olhar estivesse sempre presente, observando tudo e todos. Essa escolha estética cria uma sensação constante de vigilância e sufocamento, além de ajudar a construir um clima de suspense que acompanha o protagonista do início ao fim.

O personagem central, interpretado por Wagner Moura, é um professor universitário e pesquisador que passa a ser perseguido simplesmente por produzir conhecimento — algo profundamente simbólico. Durante a ditadura, as universidades eram alvos diretos do regime, já que pensar, questionar, pesquisar e produzir ciência eram vistos como ameaças. A lógica era clara: controlar o pensamento significava controlar a sociedade. O departamento de pesquisa que ele chefiava é extinto, ele e a esposa são humilhados, e a perseguição deixa de ser velada para se tornar completamente insustentável. O filme evidencia como a ditadura não perseguia apenas indivíduos, mas ideias, saberes e qualquer forma de pensamento crítico.

O aspecto mais inquietante é perceber como essa lógica não ficou restrita ao passado. A desvalorização do professor, do pesquisador e da ciência segue presente hoje, sob outras formas e discursos diferentes, mas com a mesma intenção: enfraquecer o pensamento crítico. O longa escancara esse ciclo histórico e provoca uma reflexão urgente sobre a necessidade de defender o conhecimento para que os erros do passado não se repitam.

Logo na abertura, o filme apresenta uma cena impactante, que nos leva a refletir sobre como cada pessoa é vista — ou ignorada — pela sociedade. A narrativa se inicia com a viagem desse professor, que naquele momento atende pelo nome de Marcelo, saindo de São Paulo em direção a Recife. No caminho, ele para em um posto de gasolina e se depara com um corpo abandonado no local. Trata-se do primeiro grande choque do longa. O funcionário do posto explica, com absoluta frieza, que se trata de um “meliante” e que o corpo já estava ali há dias. A cena causa profundo impacto justamente por retratar um ser humano tratado como algo descartável.

Quando a polícia surge, a expectativa se torna ambígua: não fica claro se vieram recolher o corpo ou interrogar o personagem. A sequência levanta uma reflexão contundente sobre até que ponto a sociedade enxerga — ou escolhe não enxergar — pessoas marginalizadas, invisibilizadas, reduzidas a números… ou sequer reconhecidas como tais.

Ao chegar a Recife, o que deveria ser um momento de alívio rapidamente se transforma em mais tensão. Marcelo tenta fugir de um passado caótico, mas percebe que continua sendo alvo de perseguição. Seu único desejo é deixar o país com o filho e tentar sobreviver. A narrativa, então, questiona se essa fuga será possível. Além disso, O Agente Secreto expõe como aqueles que deveriam zelar pela lei e pela justiça se mostram profundamente corruptíveis, atuando em favor dos mais poderosos, que se colocam acima de qualquer regra, enquanto os mais pobres e vulneráveis permanecem à mercê da exploração e da injustiça.

Visualmente, o filme é construído com rigor a partir de planos fechados. Os enquadramentos aproximam o espectador das tensões vividas pelos personagens e destacam detalhes relevantes que o diretor escolhe enfatizar, como manchetes de jornais exibidas ao longo do longa, que escancaram a realidade crua e sem filtros do período ditatorial. Há ainda uma escolha particularmente interessante de Kleber Mendonça ao incorporar a famosa lenda urbana pernambucana da Perna Cabeluda como elemento simbólico dentro da narrativa. Sem entrar em detalhes para não comprometer a experiência de quem ainda não assistiu, trata-se de um recurso que dialoga de forma eficaz com o clima de medo, paranoia e tensão que atravessa todo o filme.

O longa deixa evidente como pessoas que apenas exerciam seu trabalho, produzindo conhecimento, passaram a ser perseguidas por desagradar instâncias de poder. Essa prática, no entanto, não ficou restrita àquele período histórico. As perseguições persistem sob novas formas, mas sustentadas pela mesma lógica: a deturpação da realidade, a inversão de valores, a transformação da crueldade em virtude e da bondade em ameaça. Foi esse mecanismo que sustentou a ditadura — e é perturbador perceber como ele ainda se repete.

Atualmente, o cenário se torna ainda mais perigoso diante das tecnologias capazes de disseminar desinformação em escala massiva. Se, naquela época, com recursos muito mais limitados, os danos já foram devastadores, o potencial destrutivo no presente é ainda maior.

O trabalho de Kleber Mendonça Filho é absolutamente magistral. O diretor realiza uma leitura precisa da realidade brasileira e aborda a ditadura sem recorrer a explicações didáticas excessivas. Assim como em Ainda Estou Aqui, o foco está no aspecto emocional e no ponto de vista humano. A narrativa é vivida a partir do olhar do personagem, fator essencial para o impacto do filme, inclusive junto ao público internacional.

No campo das atuações, Wagner Moura entrega mais uma performance impressionante. Do início ao fim, ele sustenta uma tensão constante no olhar, na postura e na maneira de se relacionar com os outros personagens. O espectador sente o peso do passado, o medo permanente da morte e a angústia de tentar proteger o próprio filho.

Alice Carvalho também merece destaque. Mesmo com aparições pontuais, ela constrói cenas intensas como a esposa do protagonista — uma professora desvalorizada, subestimada e rotulada como comunista simplesmente por existir e pensar. Tânia Maria, por sua vez, impressiona aos quase 80 anos em um papel marcante. Após chamar atenção em Bacurau, ela entrega aqui uma atuação cheia de humanidade, humor e empatia. De modo geral, diversos personagens despertam identificação, resultado da habilidade de Kleber Mendonça em traduzir o povo brasileiro em sua essência, com suas dores, contradições e resistências.

O reconhecimento internacional de O Agente Secreto confirma a força e a relevância da obra. O longa já conquistou importantes prêmios, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, além do prêmio de Melhor Ator para Wagner Moura. Atualmente, o filme concorre a quatro indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Elenco. Trata-se de um feito histórico, especialmente ao se considerar que o Brasil conquistou seu primeiro Oscar apenas no ano passado, com Ainda Estou Aqui, vencedor na categoria de Melhor Filme Internacional, além do Globo de Ouro de Melhor Atriz para Fernanda Torres — um marco simbólico, já que sua mãe, Fernanda Montenegro, havia sido indicada em 1999 por Central do Brasil, sem levar a estatueta.

O fato de o Brasil se destacar por dois anos consecutivos no cenário internacional com longas que revisitam a ditadura militar diz muito sobre a urgência dessas narrativas e sobre a necessidade de revisitar o passado para compreender o presente. O Agente Secreto não é apenas um filme que merece ser visto; é uma obra necessária, potente e fundamental para a preservação da memória histórica e para a defesa contínua da democracia, da educação e do pensamento crítico.

Mariana Mascarenhas

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Jornalista e Mestra em Ciências Humanas. Amante das artes em suas mais variadas formas: cinema, música, exposição, literatura…. Teatro então? Nem se fala! Busca estar sempre antenada com a programação teatral para conferir aquela peça que está dando o que falar: seja para divertir, emocionar ou refletir. Só conferir os textos e ficar de olho no que tá rolando por aí.

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