EXPOSIÇÕES

MASP apresenta primeira exposição individual em museu de André Taniki Yanomami

*Por Bárbara Moraes

A mostra reúne 121 desenhos produzidos entre 1976 e 1978 e fica em cartaz até dia 5 de abril 

A exposição André Taniki Yanomami: ser imagem, está em cartaz no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), em São Paulo, reunindo 121 desenhos produzidos entre 1976 e 1978. A mostra pode ser visitada até 5 de abril e é a primeira exposição individual do artista em um museu, com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP, e Mateus Nunes, curador assistente. A mostra retrata a cosmologia yanomami, na qual humanos, animais, espíritos, floresta e céu coexistem em uma mesma ecologia espiritual. 78 dessas imagens nunca foram exibidas antes. Os ingressos podem ser adquiridos pelo site do museu ou na bilheteria física. 

O título da mostra faz referência ao conceito yanomami “në utupë”, que pode ser traduzido como “ser imagem” e designa a essência vital de todos os seres, visível apenas aos líderes espirituais em visões xamânicas. “A mostra procura enfatizar que a produção artística indígena não pode ser reduzida a estereótipos frequentemente associados a imagens de natureza ou de meio ambiente. O trabalho de Taniki desafia essas expectativas e revela um campo visual mais amplo e sofisticado. A exposição também evidencia a impressionante capacidade técnica do artista e sua maestria no desenho”, explica o curador Mateus Nunes em entrevista ao Matraca Cultural. 

Para Nunes, um dos principais desafios expográficos ao apresentar a obra de André Taniki Yanomami está ligado à própria natureza dos desenhos do artista. “Eles emergem de uma cosmologia multiperspectivista que não opera segundo as mesmas noções de fixidez ou orientação que estruturam o espaço museológico ocidental. Por essa razão, muitas dessas imagens não possuem uma orientação única ou definitiva definida pelo artista, podendo ser apresentadas em diferentes rotações”. 

O curador também esclarece que os trabalhos são acompanhados por legendas explicativas, com objetivo de analisar cada desenho e indicar as diferentes etapas do ritual representadas. “De modo geral, a curadoria buscou ser especialmente atenta em oferecer ao público o máximo de elementos possíveis para adentrar a complexidade dos desenhos de Taniki, situando-os dentro das relações culturais, rituais e históricas que lhes dão sentido”, afirma. 

A exposição também evidencia o diálogo entre o artista e pesquisadores que acompanharam sua produção desde a década de 1970, como a fotógrafa Claudia Andujar e o antropólogo Bruce Albert, cujos trabalhos contribuíram para a documentação e preservação desse importante acervo visual e cultural.

Quem é André Taniki Yanomami

Nascido por volta de 1945 na aldeia Okorasipëki, nas cabeceiras do rio Lobo d’Almada, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, André Taniki Yanomami é artista e xamã, figura que, nas culturas indígenas, atua como mediadora entre o mundo humano e o espiritual. Entre 1976 e 1985, desenvolveu um conjunto de desenhos que traduzem visualmente visões xamânicas e aspectos da cosmologia yanomami. Parte dessas obras surgiu em diálogo com a fotógrafa Claudia Andujar, entre 1976 e 1977, e com o antropólogo Bruce Albert, em 1978, nas aldeias onde o artista vivia.

Os desenhos realizados no primeiro período retratam cenas da visão de mundo yanomami e rituais funerários da comunidade, utilizando cores já presentes em pinturas corporais e cestarias tradicionais, como preto, roxo e vermelho. No ano seguinte, durante encontros com Albert, Taniki registrou em papel suas visões durante transes xamânicos, criando composições multicoloridas e vibrantes. Essas imagens refletem experiências espirituais ligadas ao uso ritual da yãkoana, pó psicoativo proveniente da casca de uma árvore amazônica, inalado pelos xamãs para fortalecer o contato com os espíritos.

Confira a entrevista completa do curador Mateus Nunes sobre a exposição: 

Matraca Cultural (MC):  Esta é a primeira exposição individual em museu dedicada a André Taniki Yanomami. Qual foi o principal desafio curatorial ao apresentar essa obra ao público institucional?

Mateus Nunes (MN): Um dos principais desafios expográficos ao apresentar a obra de André Taniki Yanomami está ligado à própria natureza desses desenhos. Eles emergem de uma cosmologia multiperspectivista que não opera segundo as mesmas noções de fixidez ou orientação que estruturam o espaço museológico ocidental. Por essa razão, muitas dessas imagens não possuem uma orientação única ou definitiva definida pelo artista, podendo ser apresentadas em diferentes rotações.

Na exposição, optamos por apresentar os desenhos em uma determinada orientação, enquanto na publicação alguns deles aparecem rotacionados, justamente para evidenciar outras possibilidades de visualização. Esse procedimento busca sugerir ao público que essas imagens não se organizam a partir de um único ponto de vista estável.

Outro aspecto fundamental são as anotações presentes no verso de diversos desenhos. Esses registros foram feitos a partir do que Taniki relatava a Claudia Andujar e a Carlo Zacquini, e funcionam como comentários que nos ajudam a compreender a dimensão narrativa e ritual dessas imagens. Esse conjunto de materiais foi decisivo para orientar a leitura curatorial do trabalho e para situar cada desenho dentro do universo cosmológico ao qual ele pertence.

MC: Os desenhos de Taniki surgem de experiências xamânicas e de sua relação com a cosmologia yanomami. Como a curadoria trabalhou para contextualizar essas obras sem desconectá-las de seu significado espiritual e cultural?

MN: Os desenhos de Taniki não podem ser dissociados de sua dimensão espiritual e xamânica. Muitos deles estão diretamente ligados a experiências rituais e a modos de conhecimento próprios da cosmologia yanomami. Os desenhos realizados em 1977, por exemplo, concentram-se na representação do reahu, o ritual funerário yanomami. Na exposição, esses trabalhos são acompanhados por legendas explicativas que analisam cada desenho e indicam as diferentes etapas do ritual representadas. Esse contexto é fundamental para que o público compreenda que esse conjunto de imagens possui também uma dimensão narrativa e explicativa, registrando práticas rituais que continuam sendo realizadas pelos Yanomami até hoje.

Já os desenhos produzidos em 1978 apresentam uma linguagem mais abstrata e geométrica. Nesse caso, os textos da exposição procuram indicar as relações entre essas formas e as experiências visionárias associadas ao uso da yãkoana, um pó psicoativo de caráter sagrado na cultura yanomami. A yãkoana é utilizada nos rituais xamânicos para alimentar os espíritos e possibilitar a comunicação com eles, e também produz no xamã visões intensas, frequentemente descritas como composições geométricas multicoloridas e vibrantes. Muitas das imagens criadas por Taniki podem ser compreendidas a partir dessas experiências visuais, que se articulam às estruturas da cosmologia yanomami, às formas do céu e às dinâmicas de subida e descida dos espíritos.

A exposição inclui também uma vitrine com documentos, fotografias e publicações que ajudam a contextualizar o trabalho de André Taniki Yanomami. Nela estão reunidas imagens do próprio artista, fotografias realizadas por Claudia Andujar de cenas do reahu, algumas das quais aparecem nos desenhos de Taniki, além de desenhos de outros artistas yanomami produzidos no mesmo período e diferentes publicações relacionadas ao tema.

A presença desses materiais amplia o campo de leitura da mostra e permite ao visitante compreender melhor o contexto em que esses trabalhos foram realizados. De modo geral, a curadoria buscou ser especialmente atenta em oferecer ao público o máximo de elementos possíveis para adentrar a complexidade dos desenhos de Taniki, situando-os dentro das relações culturais, rituais e históricas que lhes dão sentido.

MC: A exposição reúne desenhos produzidos em diálogo com Claudia Andujar e Bruce Albert nos anos 1970. Como esses encontros influenciaram a produção artística de Taniki e a narrativa da mostra?

MN: Os encontros com Claudia Andujar e Bruce Albert foram decisivos para a produção dos desenhos de André Taniki Yanomami a partir do final dos anos 1970. Até então, Taniki não havia desenvolvido uma prática de desenho sobre papel; sua experiência visual estava ligada sobretudo à pintura corporal, que ocupa um papel importante nas práticas culturais yanomami.

Claudia Andujar introduziu o desenho em papel como uma espécie de plataforma de comunicação entre ela, que ainda estava aprendendo a língua yanomami, e alguns interlocutores da comunidade. Ao disponibilizar papel e canetas e ao fazer perguntas sobre determinados temas, ela incentivou a produção de imagens que funcionavam também como uma forma de troca e tradução entre universos culturais distintos. Foi nesse contexto que Taniki produziu seus primeiros desenhos, muitos deles relacionados ao ritual funerário yanomami.

Posteriormente, Taniki estabeleceu um diálogo intenso com Bruce Albert, que também incentivou a produção dos desenhos, oferecendo novos materiais e condições de trabalho. Diferentemente de Andujar, Albert não orientava os temas a serem representados, o que acabou abrindo espaço para uma liberdade maior na exploração visual e poética das imagens.

É importante lembrar que, naquele momento, na década de 1970, as categorias por meio das quais hoje discutimos arte indígena contemporânea ainda não estavam estabelecidas. Esses desenhos surgiram dentro de um contexto muito específico de encontros, conversas e trocas. Para Taniki, produzir essas imagens fazia sentido justamente nesse campo relacional, como parte dessas interações.

MC: Que tipo de reflexão você espera provocar nos visitantes ao apresentar a obra de André Taniki Yanomami dentro de um museu de arte contemporânea?

MN: As reflexões que a exposição pode provocar são múltiplas, em grande parte porque as obras de Taniki possuem uma complexidade notável. Uma das questões que a mostra procura enfatizar é que a produção artística indígena não pode ser reduzida a estereótipos frequentemente associados a imagens de natureza ou de meio ambiente. O trabalho de Taniki desafia essas expectativas e revela um campo visual muito mais amplo e sofisticado.

A exposição também evidencia a impressionante capacidade técnica do artista e sua maestria no desenho: seja no domínio da área pictórica, na elaboração de padronagens cromáticas intrincadas ou no poder de síntese presente em muitas das composições.

Por fim, a própria ideia que orienta a mostra — intitulada Ser imagem (da expressão yanomami Në utupë) — procura sugerir que, na cosmologia yanomami, a imagem não se limita ao campo daquilo que é simplesmente visível. Ela se relaciona ao conceito de utupë, que designa o princípio ou a imagem vital que constitui cada entidade dentro do universo yanomami. Nesse sentido, a exposição convida o público a pensar a imagem não apenas como representação, mas como uma dimensão constitutiva da própria existência.

Matraca Cultural

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