CINEMA & SÉRIES

Entre o cinema autoral e a televisão, a trajetória do diretor Fabio Rodrigo

No set, Fabio Rodrigo não é um diretor de gestos largos ou performáticos. Ele fala baixo, observa, acompanha os atores com atenção, ajusta pequenas inflexões de ritmo, pede que uma pausa dure um segundo a mais. Sua câmera parece íntima dos personagens, interessada nos pequenos deslocamentos emocionais que os revelam em profundidade.

Esse tipo de direção, discreta e concentrada no detalhe, tornou-se uma marca recorrente de seu trabalho. Ao longo da última década, Fabio construiu uma trajetória que transita entre o cinema independente de festivais e as produções de grande escala da televisão brasileira.

Desde o final de 2022, passou a integrar a equipe de direção de algumas das principais obras de dramaturgia da TV Globo. Ele co-dirigiu o episódio “Levante”, da série “Histórias Impossíveis”, e a segunda temporada de “Os Outros”, com direção artística de Luisa Lima.

Agora emenda sua segunda novela no horário nobre: “Quem Ama Cuida”, de Walcyr Carrasco, com direção artística de Amora Mautner. Antes, dirigiu o remake de “Vale Tudo”, junto ao time de Paulo Silvestrini, produção que celebrou os 60 anos da emissora.

O cineasta havia se consolidado no circuito de festivais. Filmes como “Lúcida”, “Kairo” e “Entre Nós e o Mundo” circularam no Brasil e no exterior e receberam diversos prêmios, incluindo seis Kikitos no Festival de Cinema de Gramado. O curta Engole o Choro chegou à pré-indicação ao Oscar 2025.

Seus filmes frequentemente acompanham personagens atravessados por momentos de ruptura, situações em que estruturas familiares ou sociais se fragilizam e revelam novas camadas de intimidade.

Como diretor artístico, assinou o longa “Confia – Sonho de Cria”, protagonizado por MC Cabelinho e Malía. O filme levou esse olhar de forma leve para um público jovem. Lançado no Globoplay, permaneceu entre os títulos mais assistidos da plataforma por meses após a estreia.

Para entender melhor suas inspirações artísticas, é útil olhar para o contexto em que o diretor cresceu. Nascido e criado na Vila Ede, na zona norte de São Paulo, Fabio é filho de uma mãe solo que trabalhava como faxineira.

Ele costuma dizer, meio em tom de brincadeira, mas com precisão sociológica, que crescer nesses ambientes ensina a perceber nuances de comportamento e pequenas mudanças de energia. Entre jovens negros da periferia, entender o ambiente ao redor não é apenas sensibilidade: é sobrevivência.

Essa experiência aparece em seus filmes não como tema explícito, mas como perspectiva. Muitos de seus personagens parecem existir em um ponto de fricção entre pertencimento e deslocamento, tentando reorganizar suas vidas em meio a circunstâncias que não controlam totalmente.

Na adolescência, o encontro com o hip-hop aprofundou esse modo de olhar o mundo. Ao descobrir o álbum “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s, entrou em contato com uma tradição artística que transformava experiência real em narrativa.

A lógica de unir vivência, bagagem cultural e linguagem estética continua perceptível em seu cinema. Talvez por isso seu trabalho tenha encontrado espaço tanto no circuito de festivais quanto em projetos de grande alcance televisivo.

Hoje, enquanto grava a novela e desenvolve novos projetos para o cinema, Fabio Rodrigo ocupa um lugar particular no audiovisual brasileiro contemporâneo: o de um realizador que circula entre diferentes formatos sem abandonar sua identidade artística.

No set, esse processo continua quase ritualístico. Depois de uma tomada, ele observa o monitor por alguns segundos. A cena termina em silêncio: “Respirou com mais ritmo, viu? Isso não é fragilidade. É força”.

Antonio Saturnino

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Jornalista, atleta frustrado, cantor de karaokê e pai de pets. Ama música e escrever sobre o tema durante anos lhe permitiu conhecer novos cantores e estilos musicais, então vocês verão muita coisa diferente e nova por aqui. Dança no meio da rua, adora cozinhar e estar em conexão com a natureza.

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