TEATRO

De Beetlejuice ao teatro autoral: Giovanna Sassi amplia sua atuação na cena cultural

*Por Bárbara Moraes

Atriz comenta a recepção do público, defende o fortalecimento dos musicais brasileiros e prepara novo projeto ao lado de Tauã Delmiro

A atriz Giovanna Sassi vive um momento de forte projeção no teatro musical brasileiro. Recentemente deu vida a Skye no espetáculo “Beetlejuice”, produção de grande impacto internacional, a artista niteroiense, de 26 anos, reafirma sua versatilidade ao transitar entre grandes montagens, pesquisa acadêmica e projetos autorais voltados à ampliação do acesso à cultura.

Em Beetlejuice, Giovanna deu vida a uma personagem cômica e irreverente, construída a partir de intenso trabalho corporal e vocal. “Skye foi um presente. As experimentações eram quase uma brincadeira, que aos poucos foi criando muitas camadas”, conta a atriz, que aprofundou a pesquisa estudando desde escoteiras brasileiras até a condição de saúde da personagem. A resposta do público, segundo ela, foi um dos pontos altos da temporada. “Os fãs eram extremamente carinhosos, atentos e participativos. Eles viravam quase parceiros de cena”, comenta.

Antes disso, Giovanna já vinha chamando atenção em musicais nacionais e destaca o momento positivo vivido pelo setor. Para ela, o teatro musical brasileiro atravessa uma fase ímpar, com profissionais cada vez mais preparados e maior interesse do público e do mercado. “Precisamos olhar também para os musicais originais, pequenos espetáculos cheios de arte, para que possamos criar grandes produções com assinatura brasileira e, quem sabe, exportar nossos musicais”.

Cofundadora do Centro Cultural Scuola di Cultura, a atriz tem atuado diretamente na criação de festivais e projetos que buscam democratizar o acesso à arte, como o Festival de Teatro Musical de Niterói, que realizou sua terceira edição em 2025. A defesa da cultura como direito fundamental atravessa toda a sua trajetória. “Democratizar a arte é um sonho de infância e um chamado enquanto cidadã. Sempre acreditei que todos deveriam ter acesso à cultura. Direito à cultura é inalienável”.

Entre os projetos que ganham destaque neste ano, está uma leitura autoral inédita em parceria com o ator e dramaturgo Tauã Delmiro. Ainda cercado de sigilo, o trabalho promete dialogar com a valorização da cena nacional. “Temos posições parecidas sobre a importância do teatro. O público pode esperar um espetáculo que valorize nossos atores, nossa história e o nosso teatro”, adianta Giovanna. 

Além dos palcos, a atriz é mestranda em Artes Cênicas pela USP, com pesquisa sobre o legado de Othon Bastos, e também desenvolve um livro infantil como autora e ilustradora. Com uma carreira que articula criação, pesquisa e gestão cultural, Giovanna Sassi segue ampliando seu campo de atuação e se consolidando como uma das vozes mais inquietas e promissoras de sua geração.

Confira a íntegra da entrevista com a atriz:

Matraca Cultural: Você tem falado sobre a alta qualidade dos musicais nacionais e recentemente esteve em cartaz em grandes produções. Como enxerga o momento atual do teatro musical brasileiro?

Giovanna Sassi: Capitães me transformou por ter me mostrado o caminho profissional da arte, quando deixou de ser um hobby para se tornar um ganha pão. A obra também foi responsável por me fazer enxergar a força da nossa literatura em cena. Lembro-me de muitos jovens, ainda estudantes do Ensino Médio, vindo falar comigo de como eles criaram uma nova relação com o livro que antes era só um texto obrigatório do currículo. Ao mesmo tempo, as senhoras vinham me agradecer emocionadas com o final de Dora, um final trágico e poético. Tudo isso é muito marcante.

MC: Como cofundadora da Scuola di Cultura, você vem impulsionando festivais e projetos que ampliam o acesso à cultura. Por que democratizar a arte se tornou uma causa tão pessoal para você?

GS: O momento atual do teatro musical brasileiro é ímpar. Temos profissionais cada vez mais preparados, com muitas pessoas voltando seus olhos a eles, desde espectadores, a empresas e a artistas. É um mercado que cresce e o que me alegra é ver que talvez estejamos nos encaminhando para cada vez mais contar nossa história nesses palcos. Os musicais biográficos brasileiros já fazem muito sucesso, mas precisamos também nos atentar aos musicais originais que surgem, notar pequenos espetáculos que são cheios de arte para que aos poucos façamos produções imensas com nossa assinatura brasileira e, quem sabe, passar a exportar musicais e não só importar. 

Democratizar a arte não é só uma causa pessoal, mas um sonho de infância e um chamado enquanto cidadã. Tenho desenhos e esquemas guardados de quando eu era criança que vislumbravam um centro cultural que levasse todas as formas de arte para pessoas em vulnerabilidade. Fico fascinada ao lembrar disso e ver a Scuola di Cultura hoje. Acho que eu já percebia o impacto da arte na minha vida  e reconhecia que todos deveriam ter acesso a ela, antes mesmo de saber o que seriam os direitos e deveres de um cidadão formalmente. Também nomeio como chamado porque acredito fielmente que precisamos ter atividades na nossa vida que tragam o senso de comunidade. Eu devo agir em prol das garantias dos meus direitos e do direito de quem está ao meu redor. Direito à cultura é um direito fundamental e inalienável e vejo os bons reflexos de já ter tido contato com essa noção antes mesmo de confirmar este fato na Constituição do nosso país.

MC: Em 2025, você se divide entre a continuação do Festival de Teatro Musical de Niterói, novos espetáculos e até um livro infantil. Como você organiza tantas frentes criativas e o que mais te motiva nesses projetos?

GS: Admito que, para me organizar com tantas frentes, conto com alguns bons conselheiros de vida. Essas são pessoas de diferentes áreas e que conheci ao longo da vida, a maioria mais experiente que eu, que me aconselham e a quem recorro diariamente. O que me motiva é uma paixão pela arte que não se explica e a vontade de criar com quem admiro. É claro que precisamos abrir mão de muitas coisas para atingir nossos objetivos e por isso a boa companhia se torna ainda mais indispensável nesses caminhos que podem ser muito desafiadores. 

MC:Quais são seus sonhos e ambições para o futuro, seja como atriz, diretora, produtora ou pesquisadora? Onde você imagina que sua trajetória ainda pode te levar?

GS: Me imagino fazendo muito teatro, em salas pequenas e teatros enormes e quero ainda experimentar o audiovisual como atriz. As novelas e história do teatro são um no Brasil. Quero conhecer esse mundo das novelas, das séries, pensar um trabalho que atravesse esse país imenso em que vivemos. O mais incrível dessa profissão é que toda vez que levantamos uma peça, fazemos um curta, estudamos um novo texto, o sonho já se realiza um pouco. Ainda assim, fico feliz e ansiosa com o que o futuro guarda para mim.

MC: Você viveu a personagem Skye em Beetlejuice, um espetáculo com enorme impacto internacional. O que mais te atraiu na construção dessa personagem e no universo irreverente do musical?

GS: Skye foi um presente. É uma personagem cômica, caricata, com uma música irreverente e certeira. Foi muito divertido construir a personagem. As experimentações de corpo e voz eram uma grande brincadeira que aos poucos construía essa personagem com muitas camadas. Estudei as escoteiras no Brasil, as crianças que participavam, estudei sobre a doença que tem a personagem (tetralogia de Fallot) e até consultei alguns amigos médicos para isso. Tudo isso viram camadas e ferramentas para poder jogar em cena com meus parceiros, a Pamella Rossini, o Eduardo Sterblitch, a Sofia Orleans e o Fabrizio Gorziza. 

MC: A recepção do público brasileiro a Beetlejuice vem sendo muito calorosa. Algum momento da plateia ou da temporada te marcou de forma especial?

GS: Com certeza eram os fãs de Beetlejuice que iam assistir. Pessoas extremamente carinhosas, atentas ao nosso trabalho e muito dedicadas. Todos eles acabavam se tornando quase parceiros de cena quando estavam no teatro pelas suas reações, expectativas e até seus cosplays! Eles fazem parte da memória dessas sessões e muito do que fazemos ao vivo segue reverberando pela lembrança deles.

Matraca Cultural

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