*Por Walter Camacho
Você já ouviu falar de João e Arthur Timótheo da Costa? Por que não? Essas perguntas ecoam em nossas mentes enquanto assistimos “Os imãos Timótheo da Costa”, um musical moderno que narra a história de João e Arthur, dois irmãos negros, pintores e decoradores extremamente talentosos. Eles fizeram sucesso no início do século XX e tiveram suas histórias praticamente apagadas, exceto por alguns poucos registros das suas obras. O espetáculo que narra a biografia dos artistas está em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio, de quinta a domingo, até o dia 19 de abril.
Os irmãos Timótheo da Costa foram dois artistas com “A” maiúsculo, precursores do modernismo no Brasil. Com mesclas de realidade e ficção, a produção tem como pano de fundo a chamada “Belle Époque” carioca, com todas todas as transformações sociais que estavam ocorrendo à época, como a assinatura da Lei Áurea”, e apresenta, de forma primorosa, uma verdadeira aula de história, daquelas que não aprendemos na escola.
Irene, uma pesquisadora e dramaturga, é o fio condutor da trama. Interpretada pela atriz Jennifer Dias, que imprime à personagem o equilíbrio perfeito entre empolgação e realismo, ela tenta escrever sobre os dois irmãos e se depara com a dificuldade de encontrar registros e, dessa busca, nasce o enredo. Ela consegue pinçar poucas informações, como suas obras, alguns recortes de jornais e revistas, e livros de arte. Apesar de praticamente esquecidos atualmente, os artistas foram premiados à época e tiveram certo prestígio nos círculos de arte e nas academias.
João e Arthur Timóteo da Costa ganham vida em interpretações sensíveis de Luciano Quirino e Lucas da Purificação, que, ao longo da peça, se revezam entre memórias, textos e registros de suas obras, além de retratar o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX. Em cena, constroem com delicadeza a amizade e a irmandade que os unia. Trata-se de um trabalho que equilibra dimensão didática e profundidade artística, não um didatismo simplista, mas atravessado pela sensibilidade dos próprios pintores. As atuações revelam as dores, os desafios e a potência de dois artistas negros, de origem humilde, que conseguiram, à sua maneira, ascender em uma sociedade profundamente elitista e racista.
Completam o elenco Pablo Áscoli e Sérgio Kauffmann, que se alternam em personagens da época, como Lima Barreto, João do Rio, entre outros.
A dramaturgia de Cláudia Valli, aliada à direção sensível de Luiz Antônio Pilar, torna o espetáculo ainda mais potente. Cláudia destaca que resgatar essas trajetórias para a população negra do século XXI é fundamental para o fortalecimento da autoestima. Pilar reforça essa mensagem ao afirmar que esses artistas, homens e mulheres negros, são a base da cultura e da sociedade brasileira, fazendo ecoar um recado claro: nós temos legado.
Com direção musical de Moatu, que também atua como instrumentista, e composições originais do maestro Henrique Alves de Mesquita, avô dos irmãos Timóteo, o espetáculo apresenta arranjos inéditos criados especialmente para a montagem. A música ao vivo acrescenta um charme particular à encenação, incluindo raps instigantes que trazem um sopro de modernidade e dialogam com uma cultura que ainda hoje se perpetua como forma de resistência.
O cenário também se destaca, com estruturas móveis que remetem a telas em constante movimento, criando jogos entre tempo e espaço, ora à frente, ora atrás dessas superfícies. Sobre elas, são projetadas imagens das obras dos artistas, conferindo ainda mais força e vigor à narrativa em cena.
Foi uma noite na qual o público teve diversas aulas: de teatro, história e de letramento racial. O espetáculo ressalta a valiosa contribuição dos artistas negros na nossa cultura e coloca luz sobre a importância de resgatar essas histórias.
Serviço:
Musical “Os imãos Timótheo da Costa”
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB Rio
Rua Primeiro de Março, 66 – Rio de Janeiro
Quando: Temporada até 19 de abril – quinta a sábado e segunda, às 19h | Domingo, 18h
R$30,00 (inteira) R$15,00 (meia-entrada)
Classificação :12 anos
Ficha Técnica:
Direção: Luiz Antônio Pilar
Dramaturgia: Cláudia Valli
Direção musical: Muato
Elenco: Jeniffer Dias, Lucas Da Purificação, Luciano Quirino, Pablo Áscoli e Sérgio
Kauffmann
Apresentação:
Ministério da Cultura
Banco do Brasil
Patrocínio: CCBB RJ
Realização: Governo do Brasil

