LITERATURA

Bibliotecário defende o acesso à leitura nas periferias e a valorização de autores independentes 

Sidnei Rodrigues de Andrade transformou sua relação com os livros em um trabalho de incentivo à leitura e de valorização da produção literária periférica

Há encontros que mudam a maneira como olhamos para um lugar. Durante uma visita ao Museu das Favelas, motivada pela exposição Com amor, Alcione, conheci Sidnei Rodrigues de Andrade, bibliotecário, ativista literário e educador social. Entre as histórias que atravessam o espaço, encontrei um homem que carrega muitas delas consigo e que dedica parte da vida a garantir que outras pessoas tenham a oportunidade de se descobrirem nas páginas de um livro.

A trajetória de Sidnei é marcada pela literatura, mas também pelas ausências presentes no acesso à cultura no Brasil. Sua relação com os livros começou na infância, na periferia de Diadema, na Grande São Paulo, e se tornou um compromisso com a formação de novos leitores. Hoje, no Museu das Favelas, no centro da capital paulista, trabalha em um acervo dedicado às periferias brasileiras. Fora dali, ele questiona a distância entre as bibliotecas e os territórios periféricos, a pouca visibilidade de autores independentes e um mercado editorial que ainda não contempla a diversidade de quem escreve e de quem lê no país. A história começa com um presente embrulhado em jornal.

Um gibi, um primeiro livro e o começo de tudo

Morador de Diadema há mais de quatro décadas, Sidnei cresceu em um bairro que, nos anos 1990, registrava altos índices de violência. Seu pai trabalhava como mecânico em Moema, na zona sul de São Paulo, e foi em um desses deslocamentos que ele trouxe para casa algo que mudaria a trajetória do filho: um gibi da Turma da Mônica, embrulhado em jornal.

“Ao ver o pacote, imaginei que meu pai tivesse trazido peixe. Dentro do embrulho, porém, estava uma história em quadrinhos que foi a minha primeira referência literária. O trabalho de Mauricio de Sousa ajudou a formar gerações de leitores, inclusive a minha”, relembra com orgulho.

Até os nove anos, Sidnei ainda não sabia ler e escrever. Mais tarde, passou a frequentar uma biblioteca próxima de casa, onde não havia bibliotecários. A organização e o atendimento ficavam a cargo de professores que acumulavam essas funções. Ali ele teve contato com o livro “Maneco Caneco, Chapéu de Funil”, de Luiz Camargo e, aos poucos, avançou na leitura e começou a ler diversos títulos por conta própria.

O percurso ganhou novos capítulos com grandes clássicos. Entre as obras que marcaram sua formação está “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. O gibi, o livro infantil e o romance machadiano compõem, em sua lembrança, uma espécie de trilogia inaugural com experiências distintas que ajudaram a formar o leitor que ele é hoje.

“Meu desejo de trabalhar em uma biblioteca não nasceu apenas do contato com os livros. Ela foi se consolidando ao longo dos anos, até se tornar um projeto de vida. Antes de chegar ao Museu das Favelas, eu já procurava maneiras de aproximar a leitura de outras pessoas”, conta.

Quando a leitura abre caminhos

Em abril de 2019, Sidnei participava de um clube do livro que se reunia no Sesc Belenzinho, na zona leste de São Paulo. Durante uma comemoração de aniversário de um dos fundadores do grupo, em um bar temático geek, ele conversou com uma mulher que estava sentada ao seu lado. O livro em discussão era O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Sem saber que falava com uma repórter, compartilhou suas impressões sobre Ensaio sobre a Cegueira, outra obra do escritor português.

A mulher era Isabel Série, jornalista da TV Brasil. Meses depois, em outubro daquele ano, ela o encontrou pelo Facebook e revelou sua identidade. Queria produzir uma reportagem sobre o hábito de leitura, e Sidnei seria o personagem central. A reportagem foi gravada em sua casa e no local onde trabalhava à época, uma faculdade particular próxima de sua casa onde era segurança.

A matéria foi ao ar e provocou uma reação que ele não esperava. Sidnei recebeu mensagens de pessoas de diferentes partes do Brasil e também ganhou livros. Sua história como leitor, contada na televisão, alcançou um público que até então não o conhecia. 

Três anos depois, aquela reportagem abriria outra porta. Em 2022, após começar a trabalhar no centro de São Paulo, Sidnei chamou a atenção de Daniela Alfonsi, primeira diretora do Museu das Favelas. Ela havia assistido à matéria da TV Brasil e o procurou pelo Instagram. A instituição tinha como premissa valorizar profissionais periféricos, negros e indígenas, e sua trajetória se conectava à proposta do museu.

Sidnei já havia acumulado experiências relacionadas à montagem de bibliotecas, inclusive em estações de metrô, e trabalhado no Brasil Leitor. Havia, entretanto, uma questão profissional: ele ainda não tinha registro no Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB), necessário para exercer formalmente a profissão. A reportagem, que mostrava seu conhecimento e seu vínculo com a leitura, funcionou como uma espécie de currículo. Hoje, ele resume a importância de quem constrói o museu por dentro: “O segredo do Museu são pessoas que nem eu que fazem a diferença na periferia”, explica. 

Na instituição, Sidnei integra o Centro de Referência, Pesquisa e Biblioteca (CRIA), espaço dedicado à pesquisa, à preservação e à difusão de conhecimentos sobre as favelas e periferias. Ele faz questão de reconhecer que não construiu a biblioteca sozinho. Ao seu lado, há uma equipe de profissionais, entre eles Bruno Almeida, Claudia Honorato e Gabi Santos.

O acervo tem um papel particular nesse trabalho: reunir produções e informações que representam territórios historicamente pouco contemplados pelas instituições culturais. Para Sidnei, a presença de profissionais periféricos também é uma maneira de enfrentar o racismo institucional. Em 2026, ao completar quatro anos de trabalho no local, ele já havia conquistado um apelido carinhoso entre os colegas: Patrimônio do Museu.

A biblioteca que não chega à periferia

A atuação de Sidnei não termina quando fecham as portas da biblioteca. Durante a pandemia de Covid-19, ele promoveu lives no Instagram, reunindo bibliotecários, influenciadores literários e outros profissionais para discutir uma questão que continua orientando seu trabalho: como construir uma sociedade leitora?

“A pergunta exige olhar para além do interesse individual pelos livros. Não basta incentivar crianças e jovens a ler se as estruturas que deveriam acolhê-los permanecem inacessíveis. A biblioteca mais próxima da minha casa fica a cerca de uma hora de ônibus. Se a distância já representa um obstáculo para quem deseja ler, ela se torna ainda mais significativa para famílias que precisam conciliar deslocamento, trabalho, estudo e outras responsabilidades cotidianas”, reflete.

A desigualdade aparece de maneira concreta em uma situação recente no Museu das Favelas. “Na sexta-feira, uma mãe levou a filha para conhecer o espaço infantil da biblioteca do Museu das Favelas. Ela mora em São Mateus e me disse que não tinha biblioteca perto de casa. A única que conseguia levar a filha era a do Centro Educacional Unificado (CEU), mas os livros estavam todos envelhecidos. Falei para a mãe levá-la à Biblioteca de São Paulo, porque ela ia adorar a seção infantil e poderia fazer a carteirinha para pegar cinco livros emprestados. Mas ela mora em São Mateus e precisa sair de casa, pegar o metrô e atravessar a cidade para incentivar a filha a continuar lendo. Isso é um exemplo de como o acesso à leitura ainda é desigual”, conta. 

Quem escolhe os livros que circulam?

Para ele, além de refletir sobre a distância entre os leitores e as bibliotecas, é preciso questionar quem tem espaço para publicar, divulgar e vender livros no Brasil. “Influenciadores literários e canais populares de divulgação nem sempre representam a diversidade social do país. Falta diálogo entre criadores de conteúdo e bibliotecários, além da pouca atenção dedicada a autores negros, indígenas, pessoas com deficiência e escritores oriundos das periferias. Os youtubers não vivem a nossa realidade”, afirma.

A crítica não significa uma rejeição à divulgação literária feita na internet, ele próprio utiliza as redes sociais para recomendar livros e incentivar a leitura. O questionamento é sobre a concentração das indicações em autores já consagrados e em públicos que dispõem de mais recursos para comprar livros. “Para o mercado editorial, você tem que comprar livros para ler. Eu não concordo com isso. Para você ler, você tem que ter acesso às bibliotecas, saraus e slams”.

É nesse cenário que o trabalho de escritores independentes, editoras menores, bibliotecas comunitárias e coletivos culturais ganha importância. Sidnei faz questão de comprar livros diretamente dos autores sempre que pode, pois enxerga nessas produções uma diversidade de histórias e linguagens que nem sempre encontra espaço nas grandes editoras.

Na montagem do acervo do Museu das Favelas, por exemplo, houve uma parceria com o escritor periférico Alexandre Buzo, que também luta para consolidar um espaço de venda e circulação de livros. Ele também cita Sérgio Vaz como exemplo de escritor que levou anos para conquistar reconhecimento editorial, além de nomes como Carolina Maria de Jesus, Ferréz, Dinha e Sacolinha.

Uma sociedade leitora começa agora

Ao falar sobre o futuro, o bibliotecário volta à questão que orientou suas lives durante a pandemia. “Meu sonho é que o Brasil se torne uma sociedade leitora, na qual o acesso aos livros não dependa do endereço, da renda ou da possibilidade de comprar uma obra”, declara. 

Ele sabe que a transformação exige tempo, pois a educação, ciência, cultura e arte não produzem resultados imediatos. Mas defende que a perspectiva de longo prazo não pode servir como justificativa para a falta de ação no presente. Seu desejo é que a biblioteca desenvolva ações que façam o espaço ser cada vez mais ocupado por pessoas interessadas em ler. Entre as ideias está a possibilidade de ampliar o alcance de iniciativas como o “Rolê dos Livros” até as periferias, e não concentrar esses projetos apenas nos bairros de classe média.

A proposta parte de uma convicção que acompanha sua trajetória desde o primeiro gibi: o interesse pela leitura precisa encontrar condições para crescer. Não basta dizer às crianças que os livros são importantes se não houver bibliotecas próximas, acervos acessíveis e políticas públicas capazes de sustentar esse encontro.

Ao pensar em indicação para os leitores, Sidnei escolhe dois autores que considera fundamentais: Machado de Assis e Carolina Maria de Jesus. Separados por épocas distintas, ambos enfrentaram preconceitos e registraram, em suas obras, contradições profundas da sociedade brasileira. “A leitura é importante. Frequentem bibliotecas. Procurem pessoas nas quais possam se inspirar. As obras que recomendo são Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quarto de Despejo. Se você ler esses dois, você entende a sociedade brasileira”, afirma.

A recomendação reúne a defesa da leitura como possibilidade de compreender o país, reconhecer desigualdades e enxergar experiências que tantas vezes ficam à margem das narrativas dominantes. Seu trabalho parte de uma biblioteca específica, instalada em um museu dedicado às favelas, mas aponta para uma transformação que precisa alcançar escolas, bairros e cidades de todo o Brasil.

Antes de se despedir, Sidnei deixa um desejo que também funciona como síntese de sua atuação: “Eu desejo olhar os nossos, os periféricos”.

Olhar para quem está nas periferias é, para ele, reconhecer seus leitores, escritores, pesquisadores e produtores de conhecimento. É entender que a literatura já existe nesses territórios e que o desafio está em garantir que ela seja lida, valorizada e compartilhada. Mais do que formar leitores, Sidnei trabalha para que ninguém precise atravessar a cidade para descobrir o direito de ser um deles.

Bárbara Moraes

Bárbara Moraes

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