*Por Bárbara Moraes
O projeto “Palmeiras Imersivo”, do Instituto SemeArtes, chega ao Museu da Imigração com interação inédita com Zumbi, Dandara, Ganga Zumba e mestres da capoeira
Imagina ouvir e ver de perto figuras históricas como Zumbi dos Palmares, Dandara e Ganga Zumba, líderes negros que marcaram a resistência quilombola? O que era impossível, por meio da realidade aumentada, se tornou viável. Essa é a proposta do “Palmeiras Imersivo” do Instituto SemeArtes Culturais, associação tem como objetivo ajudar pessoas através das artes, preservando e disseminando a cultura brasileira. O projeto será lançado nesta quinta-feira, dia 20 de novembro, no Museu da Imigração e permite ao público conhecer o Quilombo dos Palmares e a trajetória da capoeira por meio da tecnologia. A ação é gratuita, aberta ao público e começa às 14h.
Fundado em 2014 como FJU Capoeira, o Instituto trabalha para promover a inclusão e fortalecer a identidade cultural, compartilhando a história, os valores e as tradições do Brasil. Além de interagir com personagens históricos reais, que relatam em primeira pessoa suas lutas e conquistas, os visitantes também poderão ouvir ícones da capoeira: Mestre Bimba, Mestre Pastinha e Mestre Valdemar, que apresentam os fundamentos e movimentos da roda
“A ideia nasceu de uma paixão profunda pela Capoeira e da urgência de conectar a ancestralidade com a linguagem da nossa geração. A Capoeira, por si só, é uma tecnologia social de resistência. O desafio era: como levar essa força histórica para o jovem que vive com o celular na mão. A resposta estava em transformar o que é visto como distração, a tela do celular, no portal mais poderoso para a nossa história. A Realidade Aumentada (RA) é o idioma do futuro. Unir a luta de Zumbi, Ganga Zumba e Dandara com a inovação da RA é uma forma de dizer: o passado não está distante, ele pode entrar no seu quarto e te inspirar, usando a ferramenta mais popular que existe”, explica Juliana Lima, professora de capoeira e cofundadora do Instituto.
Além da animação, o projeto inclui o making of do desenvolvimento da ferramenta, explicando como a realidade aumentada é criada, e um recurso inédito que permite ao visitante tirar uma foto ao lado dos mestres e personagens históricos, dentro do cenário real do visitante. Já é possível interagir pelo link.
A ação também contará com um workshop sobre realidade aumentada e uma apresentação de capoeira com alunos e mestres da escola. Confira aqui mais detalhes sobre o projeto na entrevista com Juliana Lima:
Matraca Cultural: Quais foram os principais desafios técnicos e criativos na construção do “Palmares Imersivo”, especialmente ao representar figuras históricas com fidelidade e respeito?
Juliana Lima: É verdade que o desafio técnico de desenvolver a Realidade Aumentada foi grande, claro, e ele se conecta diretamente com a nossa missão social. Queríamos abranger todas as pessoas, mas essa tecnologia, por vezes, exige celulares e conexões de internet mais avançadas, o que cria uma barreira para dispositivos mais antigos. Superar essa limitação técnica, pensando na democratização do acesso, foi um dos nossos primeiros obstáculos.
Mas, sem dúvida, o maior de todos os desafios foi a responsabilidade histórica e ética. Representar figuras como Zumbi, Dandara, Mestre Bimba e Mestre Pastinha não é apenas sobre modelagem 3D, é sobre honrar um legado inestimável de resistência e sabedoria.
O desafio criativo era garantir que, ao utilizar uma tecnologia tão moderna, a gente não perdesse a alma e a dignidade desses ancestrais. Isso exigiu uma pesquisa histórica rigorosa e um trabalho de curadoria cultural muito cuidadoso. Tivemos que nos perguntar a todo momento: ‘Isso representa a força e o respeito que merecem?’ O objetivo final era que o público se sentisse diante de um ancestral presente, e não de um mero avatar, tratando o legado de Palmares com a fidelidade e o respeito que ele exige.
MC: De que forma a experiência em realidade aumentada pretende aproximar o público jovem da história do Quilombo dos Palmares e da capoeira?
JL: A juventude de hoje é, inegavelmente, nativa digital. Eles respondem a experiências que são interativas, lúdicas e imediatas. É aí que a RA se torna uma ferramenta potente: ela não apenas conta a história, ela permite que o jovem a experimente em 360º e viva de forma intensa essa narrativa de Palmares e da Capoeira.
Ao ter figuras icônicas da Capoeira como Mestre Bimba, Mestre Pastinha ou Mestre Waldemar projetados no próprio ambiente em que estão, a história deixa de ser um capítulo distante em um livro. Ela se torna algo tátil, pessoal e profundamente empoderador.
O Palmares Imersivo funciona como uma ponte lúdica e tecnológica que resgata o orgulho de pertencer e a ancestralidade. A RA transforma a educação passiva em uma descoberta ativa, mostrando que a resistência do Quilombo e a beleza da Capoeira não são relíquias do passado, mas sim a raiz da inovação e uma parte viva da identidade deles hoje.
MC: O projeto inclui um making of do desenvolvimento da ferramenta. O que vocês consideram essencial que o público entenda sobre o processo de criação dessa tecnologia?
JL: É essencial que o público entenda que o Palmares Imersivo é, antes de tudo, um ato de resgate cultural movido a muita pesquisa e dedicação, e não apenas um aplicativo bonito. O making of mostra o processo humano e minucioso por trás da tecnologia.
Queremos desmistificar a Realidade Aumentada e provar que ela pode e deve estar a serviço da memória e da educação. Mostramos as horas de estudo, a dedicação dos artistas em 3D e o cuidado dos programadores em dar vida com precisão a essa história. É a prova de que a cultura afro-brasileira está na vanguarda da inovação e que a tecnologia, quando movida por propósito social, é uma aliada fundamental na preservação da nossa história.
MC: Qual impacto vocês esperam gerar ao permitir que o visitante interaja e tire fotos ao lado de mestres e líderes históricos dentro do próprio ambiente em que está?
JL: O impacto que buscamos é emocional, imediato e transformador. Quando alguém tira uma foto ao lado de Mestre Bimba, Mestre Pastinha ou Mestre Waldemar no próprio espaço onde está, essa figura deixa de ser um ícone abstrato em um museu e se torna um ancestral presente, um mentor.
É um ato de proximidade e pertencimento. Esperamos gerar um sentimento de orgulho e conexão instantânea com a própria história e identidade. A foto não é apenas um registro para as redes sociais; é uma declaração pessoal de que ‘eu estou com a minha história, e ela me acompanha’. É o empoderamento instantâneo que a Realidade Aumentada proporciona ao trazer a força do Quilombo para a palma da mão e para o seu dia a dia.
Serviço – Lançamento Palmares Imersivo
Workshop sobre realidade aumentada + Apresentação de capoeira
Aberta ao público, gratuito
Data: 20 de novembro de 2025 às 14h
Local: Museu da Imigração – Rua Visconde de Parnaíba, 1316, Brás, São Paulo (SP)
Atividades: Projeto Palmares Imersivo: disponível para download gratuito no site do instituto
Endereço da escola: Rua Coimbra, 121 – Brás (SP)
Aulas: Terças e quintas às 19h | Sábados às 10h | Tel. (11) 97224-7470 | @semearte.capoeira | @instituto.semeartesculturais

