TEATRO

Porgy and Bess, a ópera negra que transformou o público do Theatro Municipal

O Theatro Municipal de São Paulo é, sem dúvidas, uma das construções mais belas da cidade. No entanto, ao longo de décadas, o espaço foi símbolo de exclusividade da elite paulistana e manteve-se inacessível à maior parte da população por questões étnicas, sociais e financeiras. Lembro-me de que, nas primeiras vezes em que fui prestigiar um espetáculo, ao fazer um “raio X” visual do público, tive a solitária constatação de ser o único negro periférico na plateia.

Um dos objetivos da atual administração do Municipal é justamente a democratização do acesso. Para isso, diversas iniciativas vêm sendo implementadas, como a oferta de ingressos a preços mais acessíveis, a visitação guiada gratuita e a escolha de obras e elencos diversos, de modo que o público se sinta representado.

A ópera Porgy and Bess, considerada um dos maiores clássicos do repertório lírico do século XX, foi a quinta montagem da temporada 2025 do Municipal, apresentada entre os dias 19 e 27 de setembro. A obra de George Gershwin, com libreto de DuBose Heyward, recebeu uma produção inédita no Brasil, interpretada por um elenco majoritariamente negro. A direção musical foi do maestro Roberto Minczuk, e a direção cênica, de Grace Passô, primeira dramaturga negra a receber o Prêmio Shell.

A trama se passa na cidade de Catfish Row e apresenta personagens como Porgy, um homem humilde com deficiência física, e Bess, que tenta recomeçar a vida após anos de vício. A narrativa combina profundidade emocional e sensibilidade social. No repertório, estão clássicos eternos como Summertime — interpretada por nomes como Billie Holiday, Janis Joplin, Louis Armstrong e Ella Fitzgerald — e My Man’s Gone Now, imortalizada na voz de Nina Simone.

A abordagem de Grace Passô uniu as fronteiras do jazz, do folk, do teatro e da música clássica, criando paralelos entre o contexto estadunidense da época e o Brasil atual. Ela trouxe à cena elementos da cultura e das comunidades periféricas brasileiras. No palco, um elenco negro e diverso — incluindo pessoas trans no corpo de dança — deu vida à montagem. A coreografia incorporou referências das danças urbanas, como o hip-hop e o voguing.

Essa diversidade também se refletiu no público: pessoas plurais, vindas das periferias, lotaram o Municipal, muitas delas pela primeira vez no local. No intervalo entre os atos, o saguão se transformou em um verdadeiro baile charme. Uma DJ pilotava as pickups ao som de clássicos do hip-hop, enquanto o público dançava passinhos perfeitamente sincronizados.

É verdade que, em alguns momentos, percebeu-se certa falta de letramento de parte do público sobre os momentos ideais para aplaudir, o que gerou incômodo em alguns espectadores acostumados à antiga exclusividade elitista. Mas, para mim, foi um dos dias mais emocionantes! Ver tantas pessoas como eu na plateia e no palco foi a maior prova de que o Theatro Municipal, enfim, começa a se tornar um espaço verdadeiramente de todos.

Ficha técnica:

Roberto Minczuk, direção musical
Grace Passô, direção cênica
Maíra Ferreira, regente do Coro Porgy and Bess
Marcelino Melo, concepção cenográfica
Vinicius Cardoso, projeto cenográfico
Wagner Antonio, design de luz
Mario Lopes, criação de movimento e coreografia
Guinho Nascimento, Malu Avelar e Veronica Santos, coreógrafos assistentes
Alexandre Tavera, figurino
Ana Vanessa, assistente de direção cênica

Elenco:

Luiz-Ottavio Faria, Porgy
Latonia Moore, Bess
Marly Montoni, Bess
Bongani Kubheka, Crown
Jean William, Sportin’ Life
Betty Garcés, Clara
Juliana Taino, Serena
Edineia Oliveira, Maria
Davi Marcondes, Crown
Carlos Eduardo Santos, Sportin’ Life
Núbia Eunice, Clara
Zuzu Belmonte, Serena
Edna D’Oliveira, Maria
Michel de Souza, Jake
Elisete Gomes, Soprano Solo (Velório)
Mar Oliveira, Robbins
Mere Oliveira, Annie
Mikael Coutinho, Mingo / Nelson / Crab Man
Samuel Martins, Peter
Aline Serra, Strawberry Woman / Lily
Nathielle Rodrigues, Uma Mulher
Andrey Mira, Jim
Ádamo Oliveira, Frazier
Fúlvio Souza, Agente Funerário
Negravat, Scipio

Coro de solistas:

Elisete Gomes e Nathielle Rodrigues, sopranos
Mere Oliveira, Contralto
Samuel Martins, tenor
Andrey Mira, baixo

Atores:

Rodrigo Mercadante, Detetive
Washington Lins, Policial
Kaio Borges, Policial
Gustavo Lassen, Mr. Archdale
Felipe Venâncio, Legista
Malu Souza e Efraim Souza, filho de Clara e Jake 

Bailarinos:

Allyson Amaral, Boogaloo Begins, Bruno Duarte, Caio Gabriel, Daniela Raio, Danilo Alves, Debora Vaz, Evandro Passos, Guidá, Guinho Nascimento, Pitbull, Rafa Araujo, Taísa Garcia, Tanisha Evy, Trindade, Willis.
 

Antonio Saturnino

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Jornalista, atleta frustrado, cantor de karaokê e pai de pets. Ama música e escrever sobre o tema durante anos lhe permitiu conhecer novos cantores e estilos musicais, então vocês verão muita coisa diferente e nova por aqui. Dança no meio da rua, adora cozinhar e estar em conexão com a natureza.

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