No último dia 30, o Matraca Cultural acompanhou o lançamento da exposição “A Foto da História – A melhor história é aquela que se aprende contando”, Conjunto Nacional, em São Paulo. A mostra marca os 28 anos da Associação Viva e Deixe Viver, e convida o público a conhecer, por meio da fotografia, o trabalho de centenas de voluntários que transformam o ambiente hospitalar com o poder da contação de histórias.
Mais do que uma celebração visual, a mostra apresenta o trabalho de voluntários que levam o afeto por meio da leitura, cujos benefícios foram reconhecimentos cientificamente. Um estudo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), em parceria com a associação, comprovou que a contação de histórias é capaz de reduzir o estresse e aumentar o bem-estar emocional e fisiológico de crianças hospitalizadas, uma evidência que traduz em o que o grupo pratica há quase três décadas.
Publicada no Proceedings of the National Academy of Sciences, a pesquisa mostra que, ao ouvir histórias, crianças internadas em UTIs apresentaram queda nos níveis de cortisol (hormônio do estresse) e aumento da ocitocina, associada à empatia e à sensação de acolhimento. O estudo, realizado em parceria com os voluntários da Viva, demonstrou ainda que os efeitos positivos das narrativas foram duas vezes maiores que os observados em outras atividades de distração, como jogos de adivinhação.
“Sempre acreditamos em olhar para o próximo não somente com assistencialismo, mas com a visão de que o outro pode se desenvolver como ser humano”, afirma. “É gratificante ver essa legião de voluntários levando histórias e esperança a espaços tão fragilizados como os hospitais”, afirma Valdir Cimino, fundador da Viva e Deixe Viver.
A exposição reúne imagens de fotógrafos como Gustavo Scatena, Kaype Abreu, Vanessa Pereira, Luiza Kaneshiro e Anderson Steve, que registraram momentos de afeto, escuta e imaginação vividos entre voluntários, crianças e famílias em hospitais e escolas de 11 cidades brasileiras.
Para falar sobre essa trajetória, o Matraca Cultural conversou com Valdir Cimino, fundador da associação:

Matraca Cultural — Valdir, ao celebrar os 28 anos da Viva e Deixe Viver, qual é o seu sentimento ao ver o crescimento da instituição em números, voluntários e impacto na vida de tantas crianças, famílias e profissionais?
Valdir Cimino — É um momento de profunda gratidão. Sempre acreditamos em olhar para o próximo não com assistencialismo, mas com a visão de que o outro pode se desenvolver como ser humano. Ver esse trabalho exposto na Avenida Paulista, com imagens tão sensíveis, é ver uma legião de voluntários levando histórias e esperança a espaços tão fragilizados como os hospitais. Essa exposição é uma consagração, um jeito bonito de mostrar o que o afeto e o lúdico constroem silenciosamente há tantos anos.
MC — O projeto “A Foto da História” nasceu em parceria com fotógrafos e organizações. Qual foi o maior aprendizado desse processo coletivo e como ele fortalece a causa do voluntariado?
VC — Esse projeto nasceu em 2024, no Dia Mundial da Fotografia (19 de agosto de 2024), em parceria com a plataforma Atados e com apoio da ARFOC-SP. Convidamos fotógrafos a registrarem nossos voluntários em ação, nos hospitais e escolas. O resultado é um mosaico de humanidade, fotos que capturam o instante em que uma história é contada, o olhar de uma criança que se encanta, o sorriso que surge mesmo em meio à dor. É um convite para o público enxergar a importância da arte de contar histórias como um caminho de humanização.
MC — Os benefícios da contação de histórias foi reconhecido cientificamente. O que o estudo do IDOR e da UFABC representa para a instituição?
MC — Representa o que eu chamo de um “bálsamo para abrir caminhos”. A literatura e a fantasia nos fazem transcender a dor, e agora temos evidências de que isso acontece também no corpo: o estudo mostrou queda nos níveis de cortisol e aumento da ocitocina em crianças hospitalizadas. Ou seja, as histórias curam, de fato. Nosso trabalho deixou de ser visto apenas como algo “bonitinho”. Passamos a ter indicadores concretos de mudança, de impacto, de transformação real.
MC— A leitura está no centro da missão da Viva. Na sua visão, qual é o poder da leitura no processo de cuidado e tratamento dos pacientes atendidos pela instituição?
VC— Eu sempre acreditei que o lúdico é essencial para a vida. Quando você conta uma história, está dando ao outro a chance de sonhar, de se ver em outro lugar, de se reconhecer como sujeito. O lúdico é o que faz a criança, e também o adulto, entender que pode criar novos caminhos. É isso que move o nosso trabalho há 28 anos: o poder da imaginação como ferramenta de desenvolvimento humano. O que começou com um simples ‘era uma vez’ virou um movimento coletivo de amor e desenvolvimento.
Serviço
Exposição: A Foto da História – A melhor história é aquela que se aprende contando
De 30 de setembro a 29 de outubro
Conjunto Nacional – Av. Paulista, 2073, São Paulo – SP
Entrada gratuita
Mais informações: www.vivaedeixeviver.org.br

